Thursday, November 26, 2009

MÁRIO DE CESARINY (LISBOA, 9 DE AGOSTO DE 1923 – LISBOA, 26 DE NOVEMBRO DE 2006)


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O Papá que veio do Leste, Mário Cesariny, 1980



PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra



Mário Cesariny, in Nobílissima Visão, 1959

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Tuesday, November 17, 2009

CABEÇA


_Cabeça, Guilherme Santa-Rita, 1901


Muito se poderia dizer sobre esta tela, do autor, do modernismo na pintura portuguesa; estas pinceladas cósmicas, atómicas, algo de etnicamente africano e indo-europeu, mescla, detrito e glória, passado, futuro, máscara fúnebre, armadura e estátua eterna, etc, que bela oportunidade para exercitar a inteligência e o senso estético – mas hoje olhei para este quadro e apenas me ocorreu que há tanta gente que não tem cabeça, e de quantos ainda eu gostaria de ver com a cabeça assim.

Monday, November 09, 2009

RUÍNA


_People atop the Berlin Wall near the Brandenburg Gate, Sue Ream, November 9, 1989


A noite de 9 de Novembro de 1989 foi apenas o culminar de uma antiga cárie, o comunismo caiu por excesso de vodka, esteróides a mais no desporto, tecnologia obsoleta quando a inteligência russa se pirou para os EUA e a ciência ficou entregue a carreiristas idiotas, escassez de suicidas de quatro e duas pernas para estourar no espaço orbitral, uma economia de despensa doméstica, um exército gigantesco na sorna das casernas a coçar os tomates e a comer mal, porque os soviéticos se fartaram de viver em prédios comunitários, com o consequente aumento de cornudos, e sobretudo porque a Rússia sempre teve maus pedreiros.



_NVA (Nationale Volks Armee) officer Conrad Schumann, the first border guard to defect to West Berlin during the wall, Peter Leibing, August 15, 1961.

Thursday, October 08, 2009

PORTUGAL, NAÇÃO GENEROSA *


_The Encounter (Jesus and the Jew), Reuven Rubin, c. 1922

A nação que é generosa torna-se a casa,
Para todo o sempre, sangue e fé. Fidelidade
Não há maior, que a de quem é lusitano
Pelo chão. O errante que se apaixona pela luz
Alta e limpa, sem fim, da Terra do Fim,
Reconhece em cada ínfima parcela da pátria
O abrigo que no dia último receberá Adão.



* Também publicado no blogue O Bar do Ossian .

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Monday, October 05, 2009

5 DE OUTUBRO DE 1143, ASSINATURA DO TRATADO DE ZAMORA

OS MONÁRQUICOS PORTUGUESES CELEBRAM HOJE O 866º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DE PORTUGAL


-CORTES DE LAMEGO, 1139


Em nome da sancta, e individua Trindade Padre, Filho, e Spirito santo, que hé indivisa, e inseparavel.
Eu Dom Afonso filho do Conde D. Henrique, e da Rainha Dona Tareja neto do grande D. Afonso Emperador das Espanhas, que pouco há que pella divina piedade fui sublimado à dinidade Rey.
Ia q Deos nos concedeo algûa quietação, e com seu favor alcançamos vitoria dos Mouros nossos inimigos, e por esta causa estamos mais desalivados, porque não soceda despois faltarnos o tempo côvocamos a cortes todos os que se seguem.
O Arcebispo de Braga, o Bispo de Viseu, o Bispo do Porto, o Bispo de Coimbra, o Bispo de Lamego, e as pessoas de nossa Corte que se nomearaô abaxo, e os procuradores de boa gente cada hum por suas Cidades, convem a saber por Coimbra, Guimarães, Lamego, Viseu, Barcellos, Porto, Trancoso, Chaves, Castello Real, Bouzalla, Paredes velhas, Cea, Covilham, Monte maior, Esgueira, Villa de Rey, e por parte do Senhor Rey Lourenço Viegas avendo tambem grande multidão de Môges, e de clerigos.
Ajûtamonos em Lamego na Igreja de Santa Maria de Almacave. E assentouse el Rey no trono Real sem as insignias Reaes, e levantandose Lourenço Viegas procurador del Rey disse:

Fez vos ajuntar aqui el Rey D. Afonso, o qual levantastes no Câpo de Ourique, para que vejais as letras do santo Padre, e digais se quereis que seja elle Rey.

Disserão todos:

Nos queremos que seja elle Rey.

E disse o procurador:

Se assi hé vossa vontade, dailhe a insignia Real.

E disserão todos:

Demos em nome de Deos.

E levantou se o Arcebispo de Braga, e tomou das mãos do Abbade de Lorvão hûa grande coroa de ouro chea de pedras preciosas que fora dos Reys Godos, e a tinhão dada ao Mosteiro, e esta puserão na cabeça del Rey, e o senhor Rey com a espada nua em sua mão, com a qual entrou na batalha disse:
Bendito seja Deos que me ajudou, com esta espada vos livrei, e venci nossos inimigos, e vos me fizestes Rey, e companheiro vosso, e pois me fizestes, façamos Leys pellas quais se governe em paz nossa terra.

Disserão todos:

Queremos senhor Rey, e somos contentes de fazer leis, quais vos mais quiserdes, porque nos todos com nossos filhos e filhas, netos e netas estamos a vosso mandado.
Chamou logo o senhor Rey os Bispos, os nobres, e os procuradores, e disserão entre si, façamos primeiramente Leis da Herança e Successão do Reyno, e fizerão estas que se seguem.

Viva o senhor Rey Dô Afonso, e possua o Reyno.
Se tiver filhos varões vivão e tenhão o Reyno, de modo que não seja necessario torna los a fazer Reys de novo.
Deste modo socederão.
Por morte do pay herdarâ o filho, despois o neto, então o filho do neto, e finalmente os filhos dos filhos, em todos os seculos para sempre.
Se o primeiro filho del Rey morrer em vida de seu pay, o segundo será Rey, e este se falecer o terceiro, e se o terceiro o quarto, e os mais que se seguirem por este modo.
Se el Rey falecer sem filhos, em caso que tenha irmão, possuirá o Reyno em sua vida, mas quando morrer não será Rey seu filho, sê primeiro o fazerem os Bispos, os procuradores, e os nobres da Corte del Rey, se o fizerem Rey sera Rey, e se o não elegerem não reinará.

Disse despois Lourenço Viegas Procurador del rey aos outros procuradores:

Diz el Rey, se quereis que entrem as filhas na herança do reyno, e se quereis fazer leis no que lhes tocar.

E despois que altercarão por muitas horas, vierão a concluir, e disserão:

Tambem as filhas do senhor Rey são de sua descendência, e assi queremos que sucedão no reyno, e que sobre isto se fação leis, e os Bispos e nobres fizerão as leis nesta forma.

Se el Rey de Portugal não tiver filho varão, e tiver filha, ella sera a rainha tanto que el Rey morrer; porem será deste modo, não casará senão com Portugues nobre, e este tal se não chamará Rey, senão despois que tiver da rainha filho varão.
E quando for nas Cortes, ou autos publicos, o marido da Rainha irâ da parte esquerda, e não porá em sua cabeça a Coroa do Reyno.
Dure esta ley para sempre, que a primeira filha del Rey nunca case senão com portugues, para que o Reyno não venha a estranhos, e se casar com Principe estrangeiro, não herde pello mesmo caso; porque nunca queremos que nosso Reyno saya for a das mãos dos Portugueses, que com seu valor nos fizerão Rey sem ajuda alhea, mostrando nisso sua fortaleza, e derramando seu sangue.

Estas são as leis da herança de nosso Reyno, e leo as Alberto Cancellario do senhor Rey a todos, e disserão, boas são, justas são, queremos q valhão por nos, e por nossos decendentes, que despois vierem.
E disse o procurador do senhor Rey:

Diz o senhor Rey, quereis fazer Leis da Nobreza, e da Justiça?

E responderão todos:

Assi o queremos, fação se em nome de Deos, e fizerão estas.

Todos os decendentes de sangue Real, e de seus filhos e netos sejão nobilissimos.
Os que não são descendentes de Mouros, ou dos infieis Iudeus, sendo Portugueses que livrarem a pessoa del Rey, ou seu pendão, ou algû filho, ou genro na guerra, sejão nobres.
Se acontecer que algum cativo dos que tomarmos dos infieis, morrer por não querer tornar a sua infidelidade, e perseverar na lei de Christo, seus filhos sejão nobres.
O que na guerra matar o Rey contrario, ou seu filho, e ganhar o seu pendão, seja nobre.
Todos aquelles que são de nossa Corte, e tem nobreza antiga, permaneção sempre nella.
Todos aquelles que se achrão na grande batalha do Campo de Ourique, sejão como nobres, e chamê se meus vassalos assi elles como seus decendemtes.
Os nobres se fugirem da batalha, se ferirem algûa molher com espada, ou lança, se não libertarê a el Rey. Ou a seu filho, ou a seu pendão com todas suas forças na batalha, se derem testemunho falso, se não falarê verdade aos Reyz, se falarem mal da Rainha, ou de suas filhas, se se forê para os Mouros, se furtarem as cousas alheas, se blasfemarem de nosso Senhor Iesu Christo, se quiserem matar el Rey, não sejão nobres, nem elles, nem seus filhos para sempre.

Estas são as leis da nobreza, e leo as o Cancellario del Rey, Alberto a todos.

E respôderão:

Boas são, justas são, queremos que valhão por nos, e por nossos decêdentes que vierem despois de nos.

Todos os do reyno de Portugal obedeçam a el Rey, e aos Alcaides dos lugares que ahi estiverem em nome del Rey, e estes se regerão por estas Leis de Justiça.

O homem se for comprehendido em furto, pella primeira, e segunda vez o porão meio despido em lugar publico, aonde seja visto de todos, se tornar a furtar, ponhão na testa do tal ladrão hum sinal com ferro quente, e se nem assi se emendar, e tornar a ser côprehendido em furto, morra pelo caso, porem não o matarão sem mandado del Rey.
A molher se cometer adulterio a seu marido com outro homem, e seu proprio marido denunciar della à justiça, sendo as testemunhas de credito, seja queimada despois de o fazerê saber a el Rey, e queime se juntamente o varão adultero com ella.
Porem se o marido não quiser que a queimem, não se queime o côplice, mas fique livre; porque não hé justiça que ella viva, e que o matem a elle.
Se alguem matar homem seja quem quer que for, morra pelo caso.
Se alguem forçar virgem nobre, morra, e toda sua fazenda fique à donzela injuriada.
Se ella não for nobre, casem ambos, quer o homem seja nobre, quer não.
Quando alguem por força tomar a fazenda alhea, va dar o dono querella selle à justiça, que fará com que lhe seja restituida sua fazenda.
O homem que tirar sangue a outrem com ferro amolado, ou sem elle, que der com pedra, ou algum pao, o Alcaide lhe fará restituir o dano, e o fará pagar dez maravedis.
O que fizer injuria ao Agoazil, Alcaide, Portador del Rey, ou a Porteiro, se o ferir, ou lhe façã o sinal com ferro quente, quando não pague 50. maravediz, e restitua o damno.

Estas são as leis de justiça, e nobreza, e leos o Cancellario del Rey, Alberto a todos.

E disserão:

Boas são, justas são, queremos que valhão por nos, e por todos nossos decendentes q despois vierem.
E disse o procurador del Rey Lourenço Viegas:

Quereis que el Rey nosso senhor va âs Cortes del Rey de Leão, ou lhe dê tributo, ou a algûa outra pessoa tirando ao senhor Papa que o côfirmou no Reyno?

E todos se levantarão, e tendo as espadas nuas postas em pé disserão:

Nos somos livres, nosso Rey he livre, nossas mãos nos libertarão, e o senhor que tal consentir, morra, e se for Rey, não reine, mas perca o senhorio.

E o senhor Rey se levantou outra vez com a Coroa na cabeça e espada nua na mão falou a todos:

Vos sabeis muito bem quantas batalhas tenho feitas por vossa liberdade, sois disto boas testemunhas, e o hé tambê meu braço, e espada; se alguem tal cousa consentir, morra pello mesmo caso, e se for filho meu, ou neto, não reine.

E disserão todos:

Boa palavra, morra. El Rey se for tal que consinta em dominio alheo, não reine.

E el Rey outra vez:

Assi se faça.



Acta das Cortes de Lamego, proclamando Dom Afonso Henriques Rei de Portugal, 1139.

Wednesday, September 30, 2009

AGOSTINHO, BISPO DE HIPONA

Para a Fata Morgana e para o Goldmundo.

______Ecce Homo, João Gresbante, 1642


A negritude de Agostinho e as suas ideias claras
Não intrigaram uma cultura que grega se queria
Ainda, quando de tez escura era o deus
Que guiava o carro do Sol.
De tez escura e barba encrespada era também
O Cristo e o amor não conhecia fronteiras na carne.
Agostinho, a ti admiro, pela bondade
Dos teus pensamentos e da tua visão.
Melhor poderia ser o mundo, e para tal
Bastava duas vezes ao dia cheirar uma rosa,
Trincar um fruto e tocar uma estrela.

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Monday, August 31, 2009

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 31


____.Giordano Bruno Burning, André Durand, 2000


«Um fanático é alguém tão convencido de ter alcançado a verdade que decide afligir meio mundo; um sábio – admitindo que existem – é alguém que sabe que a verdade é difícil de alcançar e, por isso, é comedido nas palavras, porque essa é a melhor forma de limitar a disseminação dos erros e das incertezas.»

Palavras ouvidas ao Padre Joaquim Cerqueira Gonçalves em meados dos anos 80

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Monday, August 17, 2009

ABSINTHE, 7ª DOSE *


___.Mikhail Aleksándrovich Bakunin (Михаил Александрович Бакунин), Premukhimo, Rússia, 30 de Maio de 1814 – Berna, Suíça, 1 de Julho de 1876


Caracóis e cerveja, na esplanada dentro do Estio; estávamos quase a salvar o mundo... e eis que um grande amigo meu, coerente anarquista, contra-ataca a divagação política:

– Entre nenhum Estado e um Estado fascista, preferiria um Estado fascista!

A riposte, a um comunista e um social-democrata, deixou-me em recolhimento mental, até porque não sou apreciador de gafanhotos de Super-Bock.

A anarquia não é um regime político: é um patamar de consciência individual. O indivíduo, no sentido ontológico profundo, será sempre um ser excepcional, vitimado pela turbamulta e por todos os grupos, com interesses mundanos definidos, que dependem daquilo que os sociólogos (em símile com a meteorologia) chamam «pressão social». Há um século Friedrich Nietzsche foi brilhante a diagnosticar a baixa popularização política do darwinismo: na verdade, não é a excepção que sobrevive mas, sim, a mediania. A excepção, seja o génio ou o monstro, é aniquilada pelo homem médio.
Hoje, bebemos cerveja, dentro deste deserto nihilista, ao sol. Enquanto esperamos pela realização colectiva da utopia de um só, de facto, apenas com o Estado contamos. Cabe-nos, antes, realizar o mais justo dos Estados possíveis e combater toda a forma de alienação, que é sempre o esvaimento do ser-por-si para a terra-de-ninguém, política e ética, da onticidade de uma qualquer multitude acéfala.



* Texto também publicado no blogue O Bar do Ossian .



«CONFISSÃO», MIKHAIL BAKUNIN (excerto final da última carta)

Majestade Imperial, Muito Graciosa Majestade, [o Czar Alexandre II, que sucedera ao pai, Czar Nicolau I, o Czar de Ferro (1796 – 1855; imperador da Rússia entre 1825 e 1855) ao qual toda a súplica, que a «Confissão» é, foi dirigida]

[…]
O que Vos poderei dizer ainda, Senhor? Se pudesse recomeçar a minha vida, conduzi-la-ia de forma diferente, mas, ai de mim!, o passado não regressa! Se pudesse apagar o meu com actos, suplicaria que me concedessem essa possibilidade: o meu espírito não recuaria perante as provações de um serviço expiatório; ficaria feliz por apagar os crimes com o meu suor e o meu sangue. Mas as minhas forças físicas não correspondem de modo algum à força e frescura dos meus sentimentos e dos meus desejos; a doença tornou-me incapaz de tudo. Embora não seja velho pela idade – tenho quarenta e quatro anos – os últimos anos de reclusão esgotaram as minhas últimas forças, quebraram-me o resto da juventude e da saúde; pareço um velho e sinto que não me resta já muito tempo para viver. Não lamento uma vida sem actividade nem utilidade; só existe um desejo em mim: respirar uma última vez a liberdade – olhar para o céu claro, para a frescura dos campos –, rever a casa de meu pai, debruçar-me sobre o seu túmulo e, consagrando o resto dos meus dias à minha mãe torturada pelo destino do seu filho, preparar-me dignamente para a morte.
Perante Vós, Senhor, não me envergonho de confessar a minha fraqueza; confesso-o abertamente, a ideia de morrer na solidão e na reclusão apavora-me – esta ideia assusta-me mais do que a própria morte –; e do mais profundo do meu coração, do mais profundo da minha alma, suplico a Vossa Majestade que me liberte, se for possível, deste castigo supremo e o mais atroz.
Qualquer que seja a sentença que me reserve o futuro, desde já a ela me submeto resignadamente, pois ser-me-á feita justiça, e ouso esperar, Senhor, que me será permitido, pela última vez, exprimir perante Vós os sentimentos de profundo reconhecimento para com Vosso Pai de Inesquecível Memória, e perante Vossa Majestade, por todas as graças que me forem concedidas.

Um criminoso suplicante,
Mikhail Bakunin

14 de Fevereiro de 1857
.

In Confissão, Ed. Arcádia, 1ª edição, Março de 1975, Lisboa, pp. 176-177, tradução de Elisa Teixeira Pinto



NOTA: Bakunine foi preso e condenado à morte em Dresden, em 1849, acusado de liderar (o que é falso, apenas lutou ao lado de Richard Wagner, e muitos outros, nas barricadas) o Levantamento de Maio e também por ter participado na rebelião checa de 1848; mas acabaram por o entregar ao governo Russo, tendo ficado primeiro detido em São Petersburgo, na fortaleza de Pedro-e-Paulo, e depois transferido para a fortaleza de Schlüsselburg, sita na cidade do mesmo nome, nos arredores de São Petersburgo; a fortaleza ergue-se num ilhéu rochoso, na confluência do rio Neva e do lago Ladoga. Nestas fortalezas passa um total de 8 anos.
A súplica de Bakunin nunca foi atendida e é «internado» (ou é enterrado?) na Sibéria em 27 de Outubro de 1857, onde ficará prisioneiro mais 4 anos. Em 17 de Julho de 1861, evade-se no porto de Olga do navio de guerra russo Strelok, que o levava para Kastri, e pede asilo ao comandante do navio norte-americano SS Vickery. A 6 de Agosto chega a Hakodate, na ilha mais a norte do Japão, Hokkaidō, e daí parte para Yokohama, onde, por acaso, encontra um dos seus companheiros de armas de Dresden, o pintor, escritor e viajante Wilhelm Heine (cuja família o pai de Wagner tinha em grande estima; a seguir ao Levantamento de Dresden, Wilhelm Heine tinha sido auxiliado por Alexander von Humboldt na fuga, em 1849, para Nova Iorque), que o ajuda a chegar aos Estados Unidos da América.

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Wednesday, August 05, 2009

CADERNO DE NOTAS – 1




ON THE ROAD

O calor espalha uma poalha de vidro no ar, que confunde o real e o metafísico: por estes campos, um dia, homens de turbante montaram camelos (lamentam os sobros, em sumidos lamentos de brisa, que não se recolham mais do sol implacável na sua sombra); também Godos, Lusitanos, Fenícios, Romanos, Gregos e Celtas aqui combateram, eregiram divindades e sonharam. As pedras sagradas, no silêncio, ecoam cânticos incompreensíveis, porém a noite ainda não chegou e só a canícula abrasa as almas com a luz impossível da Finisterra...


SEM FIM

Todo o semita percorre uma planície desértica que guarda na alma: sangue demasiado antigo, que no início dos tempos os anjos amaldiçoaram. Para os europeus qualquer montanha é um Sinai; nada sabem da metafísica da terra chã a perder de vista. Uma vez, de frente para o Sahara, ouvi de um Tuaregue que o deserto era a face de Deus; cada vez mais o sinto e sei, principalmente quando a noite vem e estende o seu deserto de astros sobre os ermos estendidos do mundo.


DÓLMEN

Aqui, a pedra canta. A morte transforma-se num hino, as ossadas vencem o pó: são uma arqueologia das profundezas que se veste da carne da noite e se narra em sangue efémero, dentro do brilho irreal da Lua, com um sudário branco ao fundo, entre as oliveiras no escuro, como se os mortos cavalgassem o ar. É quase uma imagem de horror, mas confio mais nos mortos do que nos vivos: os mortos respeitam o ventre de uma mãe de pedra e os errantes que pernoitam em cemitérios.

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Thursday, July 16, 2009

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 30




«A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio.»

Fernando Pessoa

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Friday, July 10, 2009

QUEM DEMANDA SÓ QUER SEM NADA QUERER


_Ossian Awakening the Spirits on the Banks of the Lora with the Sound of his Harp, Gerard Francois, 1801


«[…] E pois entrarom na câmara e virom a mui rica coroa de prata sobre que o mui Santo Vaso estava, nom houve i tal que nom conhocesse que aquele era o Santo Graal; e fincarom logo os geolhos em terra, tão ledos e com tão grão prazer do que viam, que lhes semelhou que nunca haviam de morrer.
Estando eles assi em sa oraçom, virom sôbola távoa de prata um homem vestido de panos brancos, mas, sem falha, o rostro nom lhi podiam ver, ca era de tão grã claridade que os olhos, que mortais eram, nom no podiam ver, ante se envergonhavam, de tal guisa que o lume de cada um nom podia catar maravilha celestial.
O homem, que estava sôbola távoa, assi como vos digo, disse:
– Vinde adiante, cavaleiros compridos de fé e de crença, e haveredes o manjar que tanto desejades. E tu, filho Galaaz, que eu achei mais leal e melhor ca outro cavaleiro, vem diante.
E ele se ergueu e chegou-se à távoa, mas a claridade era tão grande que adur podia ver per u fosse.
E o homem lhi disse:
– Abre a boca.
E ele a abriu; e ele lhi deu hóstia. E assi fez a cada um. Mas bem sabede que nom havia i tal deles a quem nom semelhasse que lhi metiam na boca um homem vivo e nom houve tal que cuidasse que era em terra, mas em céus, onde aveio que houverom tão grã lediça e tão grão prazer que mortal coraçom nom podia pensar.»


Galaaz em Corberic, cap. LXXVI do códice manuscrito nº 2594, existente na Biblioteca Palatina de Viena de Áustria. Publicado por Carlos von Reinharddtöttner, História dos Cavaleiros da Mesa Redonda e da Demanda do Santo Graal, Berlim, 1887; e Augusto Magne, A Demanda do Santo Graal, Imprensa Nacional, 1944.


COMENTÁRIO
Ninguém conhece os nomes com que os convocaram os homens, o mito apaga-os duas vezes: em vivos pela grandeza maior que a vida; na morte porque a glória os rouba de si. Nunca quiseram um rosto, um nome, jamais desejaram a fama, o ouro, o conforto ou a imortalidade numa lápide.

«Cavalo de sombra, cavaleiro monge»!

Saturday, July 04, 2009

BRAVO NOVILHO DO PINHO, DA ILUSTRE GANADARIA PS, 666 QUILOS DE PURO GARBO




Então demite-se assim um pobre de um ministro, só por ser acólito da Igreja Satanista Tauromáquica Lusíada, quando o mundo está nas mãos da Grande Igreja Satânica Universal??
Vivemos na mais vil tirania, meus senhores, na mais vil tirania! Já não há decadência que possa dizer esta decadência...

Tuesday, June 30, 2009

CARTA DE UM TENENTE DA WEHRMACHT EM LENINEGRADO

_Dedicado à She, companheira de luta.

_Two young German soldiers, one injured, the other dead (as they advanced into Germany, the Allied soldiers were constantly surprised _at the extreme youth of the enemy forces), 31 March 1945. Foto de arquivo.


«Factos como esses desonram o uniforme alemão. Não é de admirar o crescimento da resistência francesa quando as SS forçam todo o cidadão decente a empunhar armas contra nós!»
Marechal Erwin Rommel; palavras a Hitler na Conferência de Margival, em Junho de 1944, a propósito de atrocidades cometidas pelas SS.


«Querida e estimada Mãe,

as saudades são muitas, de tudo e de todos, até da nossa neve, apesar de rodeado desta, que nos mata. Não há mais esperança mas lutamos, contra os Russos e contra nós, as deserções são muitas, morre-se de pé como uma estátua triste que perdeu as forças e a fé, e as altas patentes que militam no Partido começam a «desaparecer». Vieram para roubar uma Cruz de Ferro e agora, aqui, só morrem Alemães!
Hoje, nós os de Infantaria, recebemos ordem de mudar de uniformes. Muitos dos meus colegas oficiais recusaram-se, mas eu aceitei a ordem, com espírito de dever e orgulho por vestir a mesma farda que os meus soldados! Acho um suicídio cobarde dar uma oportunidade aos atiradores Russos cujo alvo somos nós, os oficiais.
Somos nós os oficiais de baixa patente, os soldados e os sargentos que não desistimos, alguns combatem com pés que já não são seus, que o gelo entregou à morte, e até os SS dos corpos de combate deixaram de ser incomodados com «piropos». Agora somos todos apenas Alemães que esperam a morte.
Não recebemos notícias há muito e não sei quando esta carta chegará. Talvez eu esteja já morto quando a receberes. Ontem matei sete Russos, um em luta corpo a corpo, furei-lhe o coração. Já não sei quem sou, querida Mãe.
Não me esqueças, lembra-te do teu Friedrich, que sempre foi um bom filho, do menino doce que criava pombos e que cresceu para ser um homem vaidoso.

Beijo as tuas mãos, dá saudades aos meus irmãos, especialmente à Frida, por cujo futuro tanto temo.


Do teu filho, que nunca te esquece,

Friedrich,

Oberleutnant,

3 de Janeiro de 1944,
Wehrmacht, Leninegrado.

P. S. Soube por Finlandeses das SS que o meu amigo Finlandês que estudou comigo em Colónia, lembras-te? o Karel, foi morto em combate junto ao Svir. Recusou retirar com o pelotão que comandava e foram todos mortos. Um herói, nunca o esquecerei, com aquela cara de gigante esquimó e o riso franco. Tudo está perdido, querida Mãe.»


.Klatuu Niktos



_Leningrad Blockade (diorama; Museum of the Great Patriotic War, Moscow), Sergey Nemanov, 2006

Monday, June 22, 2009

ADIVINHAS


_Fotograma do filme «Rize», David LaChapelle, 2005


Qual o modo mais seguro para encontrar numa cidade desconhecida um construtor civil português?
Procure a zona urbanisticamente mais caótica e depois apure o olfacto para um inequívoco cheiro a peido.

Como se aumenta a actividade cerebral de um deputado da maioria em plena sessão plenária?
Envia-se para o seu telemóvel uma SMS com os resultados do Euromilhões.

Qual a diferença automobilística entre um Presidente e um Rei?
Se lhe bloquearem a marcha para que passem oito Mercedes topo de gama de cor negra, rodeados de carros e motas da polícia: é um Presidente. Se ultrapassar um coche, engalanado de dourados e plumas, com uma escolta de quatro cavaleiros à frente e quatro atrás: é um Rei.

Como se acha um patriota no meio de uma manifestação do PNR?
Faz-se duas rajadas de metralhadora para o ar. No lugar do chão onde não ficar trampa rala... talvez tenha estado um patriota.

Que oração acorda Deus dentro de uma igreja?
Aprende-se a fazer balões e leva-se uma caixa de pastilha-elástica.

Wednesday, June 10, 2009

VOLTA DOS DIAS


_Fotograma do filme «Le Voyage dans la Lune», Georges Méliès, 1902


Um dia pode ser tantas coisas. A 10 de Junho de 1580 morre Luiz Vaz de Camões e não se lhe conhece ressurreição – penso que o diagnóstico só poderá ser desgosto e fome –; a cada ano há um Junho, com todos os seus dias. Terrível só pode ter sido, não o dia 10 de Junho de 1944, data em que a primeira bomba V-1 se abateu sobre Londres, mas cada uma das noites seguintes, como se todas as fantasias e medos da ficção científica vitoriana se constelassem nos céus britânicos, numa abóbada de horror.
A 10 de Junho de 1926 morreu Antoni Gaudí, que ergueu abóbadas impossíveis de caber no paraíso cristão. O mundo é uma matéria complexa e paradoxal. Hoje o meu dia não foi mau de todo, vi na rua mais estúpidos do que é habitual, o que nem me espantou: todos os povos têm o seu dia, em que podem mostrar do que são feitos... e ainda vou beber uma cervejinha, para combater o calor do corpo, que para o da alma já não há remédio.




______.Jornal La Caricature, 27 de Outubro de 1883, Paris, França

Sunday, June 07, 2009

FOI BATOTA!




Estou chateado, foda-se, estou chateado! Ainda não foi desta que fui eleito para o Parlamento Europeu! Que injustiça, eu que fiz tudo o que um bom candidato patriótico deve fazer: fui à missa com a Manuela Ferreira Leite e, apesar de estarem todos a ressonar, ainda tive coragem para lhe beijar a mão; ofereci uma rosa biológica ao José Sócrates e consegui dizer-lhe que ele é um homem muito inteligente e um dos grandes pensadores do século; cavei um campo de batatas com o Jerónimo de Sousa, de tronco nu, como um verdadeiro operário bolchevique, e ainda me sobrou energia para dar uma picaretada num lancil; aguentei ir à Kapital com o Paulo Portas e dançámos os dois, bem juntinhos, como verdadeiros correlegionários; e, por fim, apesar do cansaço, ainda me submeti a uma sessão íntima de BDSM, regada a champanhe francês e defumada a maconha da Amazónia, com uma militante influente (não me lembro do nome) do Bloco de Esquerda! E não fui eleito??
Foda-se, estou chateado!





ESTE POST FOI PATROCINADO POR «DISCOGRÁFICA RAPA-O-TACHO»

Sunday, May 31, 2009

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 29


_Valkyrie, Konstantin Vasilyev, 1971


«Caminhou sobre as águas, não porque fosse santo, mas porque atolhara o rio de cadáveres. Uma verdade tão simples: uns passam o rio; outros, não.»

Klatuu Niktos

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Thursday, May 21, 2009

FUMO E FOICES COR-DE-ROSA

Dedicado à Ana Margarida Esteves, da Comissão Coordenadora do MIL, e ao Flávio Gonçalves, MILitante.

_Lenin Coca-Cola, Alexander Kosolapov, 1980


THE SKELETON OF THE FUTURE (AT LENIN'S TOMB)

Red granite and black diorite, with the blue
Of the labradorite crystals gleaming like precious stones
In the light reflected from the snow; and behind them
The eternal lightning of Lenin’s bones.


O ESQUELETO DO FUTURO (NA TUMBA DE LENINE)

Rubro granito e negra diorita, com o azul
Dos cristais de labradorite a luzir como pedras preciosas
Dentro da luz reflectida pela neve; e por detrás
O clarão eterno dos ossos de Lenine.


Hugh MacDiarmid (1892 - 1978)

Tradução de Klatuu Niktos



Poema também publicado no blogue O Bar do Ossian .

_ Molotov Cocktail, Alexander Kosolapov, 2001






National Socialism: A Left-Wing Movement
Povl H. Riis-Knudsen
Originally printed in Danish 1984

For far too many years it has been widely accepted that National Socialists are extreme right-wingers, and only rarely have they hesitated to refer to themselves as such. At a certain point, however, it became the official policy of the World Union of National Socialists to avoid the term “right-wing,” claiming that National Socialism does not fit into the pattern of “right” and “left” and instead ought to be considered as standing above this distinction. This most certainly was a step in the right direction, but at this time and within the context of the current struggle it might, however, be a good idea to reconsider the whole question about political wings and make a few points clear concerning the meaning of the terms “right” and “left” and their application to today’s political scene.

Historically, the words “right” and “left’’ in reference to political views originated in pre-revolutionary France, where those who wanted to preserve the system of government more or less as it was sat to the right in the National Assembly, whereas those who wanted more radical changes sat to the left. Hence, the term “right” for the reactionaries and “left” for the revolutionaries – terms that have since become universally known and used. Neither the word “reactionary” nor the word “revolutionary,” however, says anything universal about the particular views in question.

They are both relative and receive their specific meaning only within a given historical context. The revolutionaries of former times, as for instance, the European National Liberals of the 19th century, do not seem very revolutionary today – quite the contrary! – just as today’s reactionaries would have been considered very revolutionary 200 years ago. When the Communists took over in Russia in 1917 they did so as revolutionaries out to overthrow an ineffective and corrupt regime, whereas today they represent the reactionary establishment facing a new revolutionary challenge.

In our time the traditional left wing is predominantly Marxist – even to such a degree that the very term “left wing” is thought to be synonymous with the word “Marxist.” This, of course, has no basis in reality. Any revolutionary is a left-winger – it is just that the Marxists have had so little competition that they have been able to appropriate the term.

On the other side of the political spectrum we have the right-wing, consisting of reactionaries who want to preserve the present society and the so-called Christian civilization of the West with its materialism and capitalism. The right-wingers stand up for traditional patriotic values: they are good Christians and good citizens who defend the Constitution and are loyal to their country and their monarch, if they have one. They are willing to go to war against any other nation to assert the greatness of their own – even if it means waging a nuclear war against another White country if they think its system of government threatens their own domestic order, no matter how corrupt and degenerate it may be. They are for an economy based on unrestricted free enterprise, regardless of the .consequences, but they resent the Liberal trend in politics as well as immigration and racial integration, because they fear any changes that could upset the order to which they are accustomed.

Where National Socialists are to be found in this spectrum seems quite clear: We are left-wingers – no doubt about it! We do not want to preserve the present system or any part thereof. We do not believe in the foundations of a system that has led our people into the misery of the present time! We do not want to support any institution which is responsible for two world wars between White nations as well as countless minor wars; nuclear rearmament; the pollution of the environment; unemployment; the total disillusionment of young people, who have lost all faith in the future; drug abuse; pornography; and all the other forms of complete degeneracy which are displayed today.

We National Socialists want the most radical change of all: we want the complete overthrow of the entire Old Order! Whereas Marxism shares a basic equalitarian philosophy with the Old Order and defines itself as a materialistic movement aiming at the mere redistribution of the material goods.









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_A ouvir Death In June, «Circo Maximo».



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Monday, May 11, 2009

PENSAMENTO POLÍTICO DA DÉCADA




«Nos Estados democráticos não se ataca a polícia.» – diz-nos o senhor Primeiro Ministro; é uma expressão de funda inteligência política, a merecer elogio e ovação, mesmo considerando que há excepções (Portugal é uma). Tomemos, como exemplo, esse grande Estado democrático, que é a República Popular da China: ninguém ataca a polícia, nem mesmo os mais façanhudos malandrins… não têm tempo…

Tuesday, May 05, 2009

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 28


_Newton (after William Blake), Eduardo Paolozzi, 1995, praça da British Library, Londres


«Nos nossos dias é precisamente uma estirpe débil que reina nas cátedras; se Schopenhauer pudesse escrever hoje o seu discurso sobre a filosofia universitária, não precisaria de uma clava para vencer, bastar-lhe-ia um caniço. Foi sobre as cabeças bicórneas dos herdeiros e descendentes destes epígonos que ele desferiu os seus golpes; tão infantis e minúsculos, para que lembremos o provérbio hindu: Os homens nascem, de acordo com as suas acções, estúpidos, mudos, surdos e disformes

Friedrich Nietzsche

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Tuesday, April 28, 2009

NOTÍCIAS DA PESTE – 22




NÃO FOI ELE, FOI O PRIMO
Sem temor nem pudor, José Sócrates considera-se de legítimo direito, partidocrático, Primeiro Ministro de Portugal… e é-o: um Primeiro Ministro medíocre, incompetente e intolerante que alardeia a nossa vergonha colectiva pelos jornais da Europa, sob suspeita de corrupto e gatuno.

VOZ DO GADO
Vou tirar o 10º, 11º e 12º num ano só.
– Mas isso é possível?
– É, só tens que ir lá e fazer os exames todos, aquilo é fácil! A minha avó tirou a 4ª classe em cinco meses…

ASSOCIAÇÕES CRIMINOSAS
Manuela Ferreira Leite, prevendo a não obtenção de uma maioria absoluta (expressão política do fascismo verde pós-democrático, como diria Matthieu Baumier), afirma a hipótese de um arranjinho governativo: uma coligação PS/PSD! Que este PSD não é alternativa ao PS há muito o sabemos, mas, pelos vistos, já nem sequer é alteridade. Votem, saloios.

VOZ DO GADO, 2
Vem tudo do mesmo, pá! Então tu não sabes que os porcos também comem galinhas?

ORGANIZAÇÕES FABRIS
Algumas chefias das esquadras da Polícia de Segurança Pública determinaram tectos mínimos de detenções para a progressão dos agentes na carreira, nomeadamente no Porto e em Lisboa; a 2ª Esquadra de Investigação Criminal da PSP do Porto afixou documento em que se exige «Maior actividade operacional. Objectivo: 250 detenções»! Acho bem, e caso os senhores agentes tenham dificuldade em cumprir o estabelecido, falem comigo, que vos envio um memorando a esclarecer-vos quem deve ser detido...




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Saturday, April 25, 2009

A MARCHAR CONTRA OS CANHÕES DESENHADOS PELAS NUVENS


_Lisboa, postal antigo, década de 30


Nada, este silêncio. As ruas cada vez mais sujas, e uma utopia qualquer na miséria dos pombos, dois sem uma pata, que adejam por entre tapumes e os sacos e os papelões dos mendigos estendidos no Terreiro do Paço. Quero mais que a minha alma, quero um lugar puro, mesmo sabendo que é sempre possível o asseio, ainda que rodeado pela mais vil sujidade, quero um lugar puro. Talvez a miséria se alimente da miséria, mas é imperioso que algo no cinzento do chão sonhe com o azul do céu.
É um dia como os outros, os lisboetas passam a ponte, que já foi de Oliveira Salazar e agora é de 25 de Abril, são apenas nomes e o sol brilha por cima de uma aragem fria, com estrangeiros apatetados, cada vez mais europeus e apatetados, sinonímia de tudo, por uma capital calada, triste, desértica, de um país adormecido.
O mar, o mar, viro-me para o mar e agora a minha raiva é imensa. Eu amo o meu País, sem opção, nem minha nem sua, somos. Vamos ficar aqui um pouco ambos calados, em frente à ilusão épica de um destino, que sonhamos para além destas águas sujas. Talvez os homens fossem mais limpos se não tivessem cu, talvez qualquer coisa. Talvez a miséria se alimente da miséria, mas é imperioso erguer um palácio azul no cinzento do chão. Amo-te, Portugal.




Também publicado no blogue O Bar do Ossian .

Friday, April 17, 2009

PARA UMA OVELHA A CAGAR


_Marble sculpture of the God Pan copulating with a goat, Roman Art, from city of Herculaneum, Archaeological Museum of Naples


De fofo orvalho é a planura
Dos teus quadris a levante,
Eterno e igual ao instante
De sabedoria na candura

Que há num cu tão branco.
Faz lembrar um alvo pote
Em cima dum jumento a trote,
E treme, ó, como um manco.

A tremer também eu fico
Com tanta e nobre cultura,
A ter, assim por finura,
Vénia do mangalho no bico.

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Monday, April 06, 2009

O SILVO DA LANÇA NO AR

Dedicado aos Amigos e Amigas do Movimento Internacional Lusófono.

Maka' sito'maniyan uki'ye,
Oya'te uki'ye, oya'te uki'ye,
Wan'bali oya'te wan hoshi'hi-ye lo,
Ate heye lo, ate heye lo,
Maka o'wancha'ya uki'ye,
Pte kin ukiye, pte kin ukiye,
Kanghi oya'te wan hoshi'hi-ye lo,
A'te he'ye lo, a'te he'ye lo.

O mundo inteiro caminha,
O povo está a chegar, o povo está a chegar,
A Águia trouxe a mensagem para a tribo,
Isto o disse o Pai, isto o disse o Pai.
Por todo o mundo eles estão a chegar,
O búfalo está a chegar, o búfalo está a chegar,
O Corvo trouxe a mensagem para a tribo,
Isto o disse o Pai, isto o disse o Pai.

The Ghost Dance (Natdia), Lakota Sioux Religious Chant

Versão de Klatuu Niktos a partir do Inglês


Ósnjallr maðr
hyggsk munu ey lifa
ef hann við víg varask
en elli gefr
honum engi frið
þótt honum geirar gefi


O homem néscio
acredita que viverá para sempre
se evitar a batalha;
mas a velhice
não lhe traz a paz,
mesmo que poupado pelas lanças.


De Havamal, The Poetic Edda (Ancient Viking Verse)
Versão de Klatuu Niktos a partir do Inglês

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Wednesday, April 01, 2009

UM MACHADO

.Três anos de Crónicas da Peste.




_Fotogramas (manipulados) do filme «Legend», Ridley Scott, 1985


Hoje não é um dia de festa, não é um dia de vitória, nem é o dia dos bufões e dos tolos, hoje é apenas um dia depois de muitos outros, mas tem valido a pena: um machado pode ser tão esclarecedor quanto um tratado. Disse Nietzsche que é imoral abençoar a mão que nos agride – não vejo com que pensamento maior se pode contra argumentá-lo. O mundo está cheio de filhos de puta, e de putas, de alarves, de mesquinhos, de medíocres, de gente mais suja que um penico. Decepar-lhes a cabeça feia tem sido um prazer.

O meu nome não é Klatuu o Embuçado e a minha foto está aí em cima, é só escolher.

Tuesday, March 31, 2009

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 27


_Summer in the City, Vincent Laforet, 2007


«Um neo é alguém que finge ser algo, alguém que está ao mesmo tempo dentro e fora de algo; é um híbrido esquivo, uma pessoa que não inspira confiança, na medida em que nunca identifica um valor, ideia, regime ou doutrina específicos. Dizer neoliberal é o mesmo que dizer semiliberal ou pseudoliberal. É um puro disparate. Ou se é a favor da liberdade ou se é contra ela, mas não se pode ser semi-a-favor ou pseudo-a-favor da liberdade, tal como não se pode estar semigrávida, semivivo ou semimorto. O termo não foi inventado para exprimir uma realidade conceptual, mas antes como uma arma de escárnio corrosivo, foi concebido para desvalorizar semanticamente a doutrina do liberalismo.»

Mário Vargas Llosa

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Saturday, March 14, 2009

TAXI DRIVERS, 2


_Fotograma do filme «Taxi Driver», Martin Scorsese,1976


Olhe para aquela merda! Este mandava-o já abaixo, não escapava! Filhos da puta! – Olho para a esquerda e vejo um gajo encapuçado entre portas de uma ourivesaria.
– Aqueles também trabalham ao Sábado… Sim, a esta distância (cerca de 80 metros), e em movimento, estimo 90% de acerto de tiro, dependendo, claro, do tipo de pistola. – O taxista olha para mim. Sorrio. Ele sorri. Do espelho pendem uma bandeira do Futebol Clube do Porto, um crucifixo e a Bandeira Nacional.
– Não, 100%, eu não falharia, mesmo com pistola!
– Vire mas é à direita, que estes cabrões gostam de disparar contra táxis…
– Sabe, eu combati em Angola… Os pretos de início só tinham catanas e canhangulos, umas espingardas artesanais que faziam de canos de água. Depois, à medida que fomos aumentando o poder de fogo, foram-se refinando… nos anos 70 já abatiam helicópteros e aviões…
– O meu pai também foi combatente, em Angola, na Guiné e em Moçambique. – Ele vira à direita, olha para trás e sorri de novo.
– Os mariconços do Governo andam a dormir… Quanto mais armam as polícias, mais estes filhos da puta se armam também! Isto é uma guerra, uma guerra dos pobres contra os ricos. Quem rouba é porque não tem. Em África foi a mesma merda… se os pretos vivessem tão bem quanto os brancos nunca se teriam revoltado. Vi coisas em África que quase me davam nojo de ser Português.
– Se estes gajos arranjam um Amílcar Cabral do gamanço… estamos fodidos! – Rimos os dois.
– Podia ser que começassem a disparar para o lado certo… Mas eu é que não tenho culpa desta merda, já passei por uma guerra, e filho da puta que se atravesse no meu caminho, mando-o logo falar com o São Pedro! Se fosse vinte anos mais novo, já tinha cavado do país…
O automóvel serpenteia, a subir a avenida de um dia luminoso, com as ruas cheias de gente a passear, que entra e sai das lojas, dos cafés e restaurantes. Ao longe começo a ouvir sirenes da polícia. Agora estamos calados. Somos apenas dois Portugueses, que durante um pedaço das nossas vidas nos percebemos perfeitamente, numa cumplicidade estranha, mescla de coragem e entendimento. Ficámos a saber que poderíamos contar um com o outro, se isto chegar a termos de nos acoitar na lama e na trampa de uma vala, para defendermos o direito legítimo a viver descansados no país que é o nosso.

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Sunday, March 08, 2009

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 26



«Mais do que preocupado com a existência de Deus, estou preocupado com a fome no mundo.»

Friedrich Nietzsche

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Sunday, March 01, 2009

SANGUE, PARA PARSIFAL


_Ruakh, Samuel Bak, da Exposição Icon of Loss, 2008


Escuta, Parsifal, o meu sangue, o meu sangue
Nunca foi branco, é vermelho, como a manhã
No velame de uma nau. Escuta, Parsifal,
Falo-te do meu sangue, do meu sangue antigo
Que passou desertos e deu a volta ao orbe e
Foi derramado por todas as terras e épocas.
É vermelho, Parsifal, uma tenda iluminada
No eixo da tempestade, um abrigo dentro
Da neve, para a coragem, do rei e do mendigo.
O meu sangue, Parsifal, não tem descanso,
Acorda-me no retábulo da noite mais escura,
É uma ferida que não fecha, uma palavra
Impronunciada que procura o paraíso, arca
Que defende o tesouro que desafia as águas,
Manto de estrelas que no exílio vestiu Adão.
Escuta, Parsifal, o meu sangue é o único
Império do mundo: o amor da sombra que há
Debaixo dos figos doces da Terra Prometida,
A utopia do cego, do leproso e do proscrito.



Também publicado no blogue O Bar do Ossian .

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Monday, February 16, 2009

MARRITÓRIO

.Para o Renato Epifânio

_Só Deus, Francisco Metrass, 1856


Uma das tarefas ideológicas mais complexas, no contexto da portugalidade, é definir um patriotismo português.
Etimologicamente, patriotismo remete para a terra de nascimento de uma linhagem, não é num presente o lugar de nascimento de cada um, é o chão que nutriu o sangue dos antepassados; pode ser, em diáspora, um território primordial, em que se formou a cultura étnica fundante de um povo. Sem dúvida, mesmo considerando os múltiplos contributos que formam a riqueza do passado mais remoto das várias migrações de povos que vieram a formar os Portugueses – raízes de além Mediterrâneo, norte e leste europeias –, não é possível conceber terra pátria lusíada outra: Portugal é o chão sagrado que ergueu o nosso sangue à escritura intemporal da História. Mas Portugal é um cais.
Aqui, na Terra do Fim, neste extremo, o território é um espelho das águas, do mar desconhecido e sem fim, que fala com os povos da Finisterra desde o princípio dos tempos: Portugal é o embarcadouro do Atlântico. Não é uma nova Atenas, uma nova Cartago ou uma nova Roma – aqui a utopia é ainda um não lugar e um não nome. Tudo é para escrever nas vagas e nas tempestades, tudo é um desígnio sobre-humano, tudo é mais do que pode a vontade humana. Portugal é mare nostrum, a gesta de inscrever no depois de todas as brumas de horror o livro eterno de uma nova humanidade, acima de todos os credos, costumes, raças e pátrias: o eixo desta nação de nações é o Atlântico. Portugal foi o vaso; os continentes em que semeou, a seiva de novos povos. Somos um marritório, e deste trono das águas brotará um dia a coroa iluminada que fará de nenhuma terra o abrigo de todos os homens.




Previamente publicado no blogue O Bar do Ossian .

Sunday, February 01, 2009

OS NÁUFRAGOS




«O século XX não nos correu bem…» – diz-me o velho professor de História, há muito aposentado, com ironia amarga. Não negarei que a boa ou má fortuna também decide do decurso das nações, mas o mundo é obra humana e os Portugueses bem resistiram aos naufrágios. Não culpemos a sorte, se assassinamos reis em vez de ministros e se elegemos ladrões para chefes de governo.
Não tenho dúvidas que resistiremos a este naufrágio da pátria, já não acredito é que nos possamos salvar sem mais sangue nas ruas. Se a isso chegarmos, poupem das balas os inocentes.

Thursday, January 15, 2009

SANGUE DO MEU SANGUE


_The Journey, Jan Saudek, 2001


Terminada que foi (?) a telenovela «Maddie» o zé povinho investiu o seu fugaz e titubeante entusiasmo na telenovela «Esmeralda», num longo Inverno de descontentamento, que abranda após a primeira bica matinal. De toda esta palhaçada retira-se uma lição maior: os Portugueses são um povo muito afectivo; o afecto é uma lambedura extensa que desculpa tudo, nomeadamente o sequestro e o uso da balança da justiça para pesar cagalhotos informativos e alcoviteirices de peixaria. Notem bem, rapazes: dêem as vossas fodas dentro do casamento, de preferência abençoado por algum sacerdote santo e anti-islamita, sem cuspo seco ao canto dos lábios, ou estão lixados, não há paternidade comprovada que vos valha, cai-vos em cima o lobby da paneleiragem e das femininistas estéreis e ainda alguns penicos cheios da vizinhança, irritada com a fraca qualidade dos filmes do canal porno, pago.
Habituem-se, vivemos no conluio entre o nenhum senso e os índices de audiência das televisões, uma nova forma híbrida e livre do boato, numa realidade super-peritada e avaliada por quem vive da análise das misérias e dos miseráveis. Não protestem, se aparece por aí um regime que resolva a pobreza vai criar muito desemprego, aguentem-se, rapazes, até porque o pater familias é uma merdice anacrónica e fascista a que temos que dar morte. Nem lamentem os adolescentes futuros desta cagada de país, que encetem a velha demanda pelo reconhecimento do seu sangue, mesmo que tenham sido entregues como galinhas a uns coitaditos de uns casais que não estão para levar com listas de espera nos orfanatos, cheios de boas intenções e desejantes de dar amor desinteressado, só porque não podem gerar filhos.

Wednesday, January 07, 2009

SER MONÁRQUICO – UMA POLÉMICA, II

_A Ala dos Namorados, Jorge Colaço, 1922-27, painel de azulejos no Pavilhão Desportivo Carlos Lopes, em Lisboa


Como nada do que afirma no preâmbulo do seu texto me faz mover a bateria de neurónios que se preocupa com a ciência política, porque em parte já lhe respondi em comentário, neste e no seu blogue, e porque você nesse trecho nada acrescenta ao debate – apenas fazendo recurso a mais uma falácia do museu da filosofia, que sempre entretém plateias imbecis e faz tremer, de riso, as cadeiras, singulares, em que se sentam os sensatos – começarei onde no texto a referida pseudo «desmontagem» sua se ergue à vaidade de querer competir com a nobre arte da montaria.

Ainda, apenas, notas. 1.1. Comenta um meu comentário e não o texto publicado no meu blogue – passo, não vale a pena perder tempo com miudezas de baixa intriga, nem discutir modéstias e imodéstias: deixemos os truques aos ilusionistas. 1.2. Os desgostos. Não há contradição, nem paradoxo: os desgostos que não me disponho a discutir são os de alguém, os de um, os singulares e íntimos. Nem afirmo que há uma prova do desgosto de milhões… confronto que os desgostos colectivos já não são caprichos da emoção mas política. 1.3. Os Francos. Não, não é claro, não o é inequivocamente para todos os leitores; eis o que você afirma no texto Para os monárquicos (2): «Na prática, e pegando exactamente em D. Carlos, há que lembrar a ditadura de Franco – sim, quando o Rei via a coisa mal parada decidia fechar o Parlamento […]»; ora, usa-se Franco para o ditador espanhol e não para João Franco, aliás, foi a primeira vez que o li assim designado. A forma pela qual optou pode justamente confundir uma boa parte dos leitores – eu percebi.
1.4 O seu primeiro contra-argumento. Não afirmei em lugar algum que você defendeu um republicanismo totalitário, pelo que me parece que neste aspecto se defende de coisa nenhuma. A questão foi introduzida pela simples razão de que eu a introduzi, no desenvolvimento do meu raciocínio e do que antes, nesse texto, alego – não é assim que procede o pensamento: acrescentando matéria, ideias e progredindo?
Convida-nos de seguida a uma contagem de cadáveres (!), que quereria remontasse cinco séculos até à chacina de Aztecas, Maias, Incas; porém eu reportei-me claramente aos totalitarismos republicanos do século XX, afirmando, de facto, que os considerava mais lesivos que qualquer período tirânico da monarquia, não deixando de ressalvar que a comparação era «temporalmente injusta», uma vez que todas as civilizações foram monarquias, ou proto-monarquias, desde os primórdios da civilização humana, ou seja, admiti, como tal, que não faltaria onde encontrar «crimes das monarquias», mas nenhum século que tivesse sido tão devastado, como o foi o século XX, pelas tenebrosas formas de republicanismo que foram o nazismo, o fascismo, o comunismo, etc. Concluo nisto que a sua observação é inútil e apenas me fez desperdiçar mais duas vintenas de termos para lhe esclarecer o que sempre foi óbvio, sem ainda nada de novo ter sido trazido ao debate.
No que diz dos conluios de alguns monarcas com os fanatismos religiosos, todos os conhecemos, e concordaremos que um mês dos fornos nazis em funcionamento ocultam todos os fumos de todos os autos de fé! Quanto ao convite que me faz a «apenas hipóteses», as que aventa são de ficção científica… por que diabo irei eu imaginar as vítimas que teria originado a Guerra dos Cem Anos com os meios bélicos actuais – se isso nunca ocorreu?!? E que relação estabelece isso com as suas críticas à monarquia?? Não entendo, eu, nem ninguém. (Sic) «ou pense no que seria o controlo da sociedade por parte do Estado com os meios tecnológicos que actualmente temos». Não penso nada, homem, isso seria entregar-me consigo à perda de todo o sentido e entrar por aquelas veredas da incapacidade de pensar, em que a questão da existência de Deus é respondida por alienígenas de Saturno, que andam a plantar monolitos de metal no imaginário de alguma gente de alma mais excitada.

Não estou seguro, mas parece-me que é por esta altura que você esboça o seu segundo «contra-argumento».
2. Folgo em saber que concorda com pelo menos um argumento dos monárquicos («argumento que não houve consulta popular que legitimasse a transição para a República é muito válido e até concordo com a realização de um referendo»), mas isso é comum, quando se trata de algo evidente até para o meu piriquito de S. Tomé, que consegue dizer: Chegou o Rei! No entanto não é óbvio para mim de que «raiva» você fala, nem de quem, nem perante o quê – aqui apenas fico certo que essa «raiva», seja lá o que pretende dizer, não é minha.
O que de seguida diz, já me interpela, pela razão simples de que não tem cabimento: não, ninguém imagina, com toda a certeza, o Senhor Dom Afonso Henriques a fazer um referendo! Sabêmo-lo, sim, a vencer batalhas, a ameaçar cortar a cabeça a um enviado papal, a não respeitar tratados nem juras, a não se vergar a nada nem ninguém, espada, escudo, espada, e a ser erguido, após a Batalha de Ourique, sobre o escudo, à velha maneira germânica, e a ser aclamado Rei; isto antes que um bispo dos bispos o confirmasse como «chefe de estado». Pois aqui tem, os homens escolhem reis desde o princípio dos tempos, como os Lusitanos escolheram «o das muitas vírias», porque Viriato ganhava batalhas e se erguia como chefe dos chefes. Simples – a monarquia foi, desde sempre, o sistema natural de governação dos povos bélicos… e todos o foram; salvo uma ou outra excepção de devoradores pacíficos e místicos de frutos de bananal, dos quais a História apagou o nome. Claro, não quero parecer demagogo nem poeta, a História não parou e a questão das relações – políticas – entre governantes e governados progrediram para formas de sociedade mais complexas… ou não teríamos tido um Cromwell, a Revolução Francesa, Karl Marx, o Regicídio, etc.
Quanto ao que diz de Espanha, deixo aos «espanhóis» – povo de que tanto se fala e não existe, mas os castelhanos, os galegos, os andaluzes, etc –, não sem o advertir a que estude mais da História recente do Reino de Espanha, aquela coroa que se apropriou da geografia romana… Quanto às demais monarquias europeias, nada que espante: não referendaram porque tal não lhes ocorre. A questão não existe na sua agenda política, nem tem por onde. E teria cabimento? Se essas monarquias garantem os melhores níveis de vida, democraticidade e desenvolvimento?

3. Parece-me ser agora o seu terceiro contra-argumento. Está você certo, é isso o que penso, e insisto e reitero: a República neste país perdeu toda a legitimidade; não funciona e sempre funcionou mal. Estou com dificuldade em seguir o seu pensamento emperrado e saltitante, no entanto continuemos.
3.1. Os males. Analfabetismo. O Portugal de hoje tem uma taxa de alfabetização e literacia inferiores à Roma do século II! Não continuemos, é triste.
Indústria. Compare todo esse período (1640-1910) em Portugal e na Rússia dos czares! Tudo é relativo, meu caro, está a comparar com que nação ou nações? Não refere.
Comboios. Não os houve durante grande parte desse período, esperou-se pela Revolução Industrial … Não existia a noção política de «Europa», e Portugal nunca foi uma super-potência, nem na ilusão cartográfica – atravessada pelo corso e a pirataria – do Tratado das Tordesilhas. Não o foi sequer o Reinado de Carlos V. Apesar da expansão além mar, Portugal e Espanha sempre foram reinos de médio poder no contexto dos seus pares europeus, e que bem o provaram os exércitos, a sorte dos ventos, o ultimato das diplomacias e a História, assim que Britânicos, Franceses, Holandeses e outros se fizeram também ao mar.
Analogias, ensino, etc. Não continuemos por aí, meu caro, não é comparável nem analógico – é você que tem a tendência para meter na mesma cesta pepinos frescos e fast food preparada para micro-ondas. Passo, o ensino, privatizado, público, ao deus dará, por meditação transcendental ou intuição inteligente é outra coisa, que nada esclarece do que você havia criticado à monarquia e eu defendido.

4. (Já estou pior que o Minotauro quando se esquecia das chaves da retrete no labirinto, mas acredito que neste ponto você tenta um novo contra-argumento.)
Aqui você é profundamente contraditório… Então quer um presidente vitalício e chamar a um tal regime: Monarquia?? Bom, de facto, cavalheiros como Hitler, Franco, Salazar, etc, foram belos exemplos de presidentes-reis, despóticos e assassinos, em República! Ó meu amigo, espero que não tenha nada contra botifarras de biqueira de aço, porque a dar tiros nos pés com essa frequência, acaba aleijadinho.
Perverte (o lapso ortográfico é seu) o regime (!), o rei teria que agradar (!) ??? Permita-me usar o pensamento analógico, que tanto lhe apraz: aquilo que você deseja, perverte-o? Deixemos os terrores sexuais do cristianismo para melhor altura.
Quanto à diferença prática, a mesma está toda esclarecida no meu texto, volte a lê-lo. Em resumo (o que previamente lhe disse): um rei não tem que ser aceite, é desejado, e um presidente não é eleito pelo povo, é levado a concurso pelos partidos e votado por uma maioria dentro de uma minoria: os eleitores que se encaminharam para as urnas – consulte os dados eleitorais das últimas presidenciais e registe quantos dos Portugueses escolheram Cavaco Silva… ficará espantado.
Pergunta você: «Poderá argumentar-se que a diferença reside na ligação à pátria, mas quem nos diz que um Rei é mais patriota que um Presidente?». Respondo: digo-lhe eu, e nisto de mais não preciso. Não obstante até as lagartas das couves, que não conhecem pátria, comigo concordariam. Um rei não tem partido e, no Portugal que estamos a ter, um rei, enquanto chefe de estado e símbolo da unidade e dignidade da nação, já teria dissolvido um governo como o actual, que aviltasse, no desprezo pelos poderes legítimos e competências de um rei, todos os Portugueses!
(E não me fale do «patriotismo dos Presidentes Americanos», a humanidade e a História já plebiscitaram os mais recentes como «maus monarcas»! E deixe lá a Rússia, homem, porque isso de falar-se da Rússia sempre que se fala dos EUA sempre foi o Benfica-Sporting da política de cervejaria.)

5. A sua opinião da monarquia não ser eticamente aceitável (cito-o): «pelo facto de, como já disse várias vezes, considerar que o filho do Rei não deve ser também ele Rei apenas por ser filho de quem é». Ah, mas é por isso? É por isso que não é eticamente aceitável?! Então você quereria que numa monarquia o herdeiro do trono não fosse o filho do Rei?? Então, quem??? Quem deveria ser, meu caro?… o filho do padeiro? do capitão de cavalaria? da acriz mais famosa? do homem mais rico? Quem?
Cito-o de novo: «A questão do "serem estáveis e tudo mais" é exactamente a mesma história das monarquias europeias serem muito boas: não me interessa, interessa-me analisar a legitimidade de um Regime e não as suas consequências práticas.» – Estou pasmado! Sem qualquer ironia, estou pasmado! Então que regime pode você conseguir conceber… a que possa ser conferida legitimidade por um povo… se as consequências práticas do mesmo… forem um péssimo nível de vida, pobreza, incultura, infelicidade, injustiça social, crime, gatunagem, corrupção, falta de liberdade e desprestígio, dentro e fora de portas, desse mesmo regime?? E aqui não posso deixar de lhe dizer, mesmo se vou ser pouco elegante: ó homem, então não fale de política, faça cronismo de culinária e doçaria!
Depois, lá você me volta com a Rússia, para colocar ao mesmo nível o poderio externo dos estados totalitários – conseguido às custas da tortura, do assassinato, da guerra e do genocídio – com a minha defesa de uma monarquia democrática, nos efeitos práticos, altamente benéficos, sobre os povos europeus que a têm como regime! Etc, etc. Você acredita, verdadeiramente, nos disparates que vai escrevendo?

Por último, conclusão, ou lá o que é.
a) Não faço ideia do que se está a referir… Indique-me o «teor», que lhe procurarei responder.
b) Quanto ao seu nome, nomes, etc, nada tenho a dizer… Isso tem que pertinência?
c) Quanto ao você escrever «num dos blogues mais respeitados do país»… Ouviu isso onde, homem? Na internet?? E que importa? Confere a si uma maior credibilidade? Olhe que não, não e nunca, face à inteligência e ao tribunal da razão.
d) Dá por terminado, «definitivamente», que debate? Você nada consegue debater, é incapaz de produzir uma argumentação logicamente coerente, salta de termo para termo, de ideia bizarra para ideia bizarra e devora épocas, acontecimentos, séculos, como quem procura numa salada de frutas os pedaços de pomo que mais lhe agradam ao paladar… E tem a audácia de afirmar que debateu? Inaudito.

Digo-lhe só mais isto, meu caro polemista do blogue respeitado: o socratismo que se aprende nos liceus é um conto da carochinha. E proponho-lhe como reflexão para o resto da semana (que lhe desejo de paz e tranquilidade) o seguinte:

Os monárquicos portugueses são pessoas de bem, nenhum dano desejam a este País nem a este Povo, são, honestamente e sem reservas, patriotas, no sentido simples da palavra, que é amar. Não merecem, como tal, andar a ser falados – em boatos, anedotas e outros géneros de gáudio popularucho que querem passar por cronismo social e político –, como se fossem uns pobres tolos, ou lunáticos, que não tivessem meditado, fundamente, fundamente, sobre Portugal, o seu passado, o seu presente, o seu futuro e, acima de tudo, no bem estar, dignidade e progresso do nosso Povo e da nossa Pátria.

«O Rei é livre e nós somos livres!»

Cumprimentos.

Monday, January 05, 2009

SER MONÁRQUICO – UMA POLÉMICA

Vindo daqui, por ricochete real.




Meu caro, Tiago Moreira Ramalho, a sua argumentação enferma de falácias politicamente infantis:

1. Não discuto desgostos de ninguém, mas esta República, em si mesma, é um desgosto: não desenvolveu o País, começou no caos, aquietou-se (e desvirtuou-se) na ditadura, re-inflamou-se em outro caos utópico, de beleza atávica, para andar há 34 anos a atrasar Portugal em pseudo-democracia disfuncional. Se João Gomes está desgostoso, é inteiramente compreensível: o desgosto de um pode parecer capricho da emoção; o desgosto de milhões é um País em protesto!
«Este argumento, desmontado, é: como a República não está a ser boa, devemos mudar para a Monarquia.» (sic) – mudando o que deve ser mudado, essa foi a grande motivação política dos primeiros republicanos!

Nota: esclareça que está a referir-se a João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco, ou é a confusão total. E não foi uma «ditadura»; autoritário, sim, coisa diversa é que parece sempre quererem colocar João Franco no mesmo campo político-semântico de Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde Salgado Pardo de Andrade, António de Oliveira Salazar, Mussolini e Hitler; esquecendo que nenhuma fase tirânica de nenhuma monarquia (e a comparação é temporalmente injusta, apesar da República não ser um regime moderno e remontar à antiguidade) foi tão lesiva à humanidade e à civilização como o conjunto dos republicanismos totalitários que, à Esquerda e à Direita, devastaram o século XX.

2. O seu segundo argumento, que mistura padres, reis e presidentes é quase ilegível à luz das normas de clareza do pensamento, mas vou esforçar-me.
A promiscuidade dos sistemas retira-lhes legitimidade, sim. Padres criminosos fazem com que as religiões percam o seu valor, sim. Os maus políticos (ou seja, a corja de gatunos, corruptos e patetas que nos desgovernam) retiram, sim, todo o valor a esta república e a esta democracia, mas igualmente diminuem a República em essência, porque os regimes e as ideologias só se embricam na História a partir de uma prática, e porque este regime tem sido um atentado contínuo à democracia, não a conseguindo realizar durante estas três décadas e meia, nem elevando o grau cultural e cívico dos Portugueses, nem conseguindo uma maior distribuição da riqueza, nem prestigiando o Estado Português no concerto das nações, e a continuada má governação só tem acrescentado problemas de marginalidade, pobreza, corrupção, intolerância, javardice sexual e tensões raciais à sociedade portuguesa.
A grande correcção que se exige, cada vez mais urgentemente, é matar o «bicho», dando aos Portugueses a oportunidade de se pronunciar sobre a questão fundamental: o Regime, e se querem continuar a ser espoliados, no corpo e na alma, por esses novéis bandos de criminalidade organizada em que se transformaram estes partidos, republicanos!

3. Aqui você revela um grande desconhecimento do que os pensadores monárquicos contemporâneos têm produzido. Um rei, numa monarquia parlamentar, não é imposto, é desejado. E vou esclarecer-lhe o que pode parecer poética de pendor mítico. Defendemos uma monarquia dinástica (só lhe encontramos vantagens e garantias e isenção), mas nunca um mau monarca. A possibilidade do plebiscito que convida um rei a abdicar está no pensamento monárquico actual… mas vou mais longe: um rei não herda apenas uma coroa, um rei tem que ser aclamado: rei que não seja desejado pelo Povo, nunca poderá ser rei, e para garantir isto existe aquela força maior que os reis: o Povo Português, sem o qual não há Reino nem Reinado! A legitimidade de um rei é-lhe conferida por um legado de pátria: o Povo, o Reino, ou seja, o rei é expressão máxima da unidade da nação e é por essa tamanha dignidade e símbolo, de ser a pátria, que um rei não pode ser um fulano qualquer, que, sazonalmente, é proposto por interesses partidários (sabe-se lá quais!), para fingir que é monarca, que é o que as repúblicas fazem. Estudem, meus caros: república que queira realizar o ideário da República, não precisa de presidentes!
O mais que diz, sobre pecados e regicídios, é irrelevante, nada me interpela o pensamento; se quiser escutar lugares comuns, vou almoçar a uma aldeia: ainda aí a sabedoria popular é iluminante. Porém ainda lhe digo: um presidente não tem mais legitimidade que um rei (e em Portugal nenhuma, porque a República assaltou o poder – e isto é política – para o deixar entregue a medíocres – e isto é desgraça); um presidente (o «nosso») não é votado por mais de metade da população, sim por um eleitorado cada vez mais escasso e afastado do regime, e não é previamente escolha do Povo Português, sim de meandros sinuosos da máquina partidária, de compadrios e interesses ideológicos, que, após sucedidos, se travestem de imparcialidade: «agora já não sou Social Democrata, ou Socialista, agora sou alguém que vai fingir que é tão imparcial quanto um rei»! Eu ainda teria algum apreço por este regime, se um presidente viesse do cidadão, sem relações partidárias, nem apoio dos partidos… enfim, delegaríamos num cidadão ser rei (monarquia electiva). Tenham dó, que não somos tontos.
Os argumentos pelo estrangeiro são frágeis, é certo, mas não nos critique preferencialmente, porque enformam 90% dos discursos e da ideologia de quem nos desgoverna! Além de que não é menosprezável que os países com melhor nível de vida, civismo, cultura e democracia na Europa Ocidental sejam monarquias.
E não, não é o mesmo dizer o que você diz! As suas comparações só de si dizem, e nada do que os monárquicos portugueses, de facto, pensam.

Termino, citando-o: «A questão é que a Monarquia pode não ser, e não acho que seja, eticamente aceitável, logo, são os outros países que estão mal ao ter sistema monárquico, apesar de serem estáveis e tudo mais». Ou seja (e espero argumentos seus que esclareçam porquê a monarquia não é eticamente aceitável), para si «serem estáveis e tudo o mais» não são factores importantes que demonstram a eficácia dos regimes monárquicos, a sua democraticidade e o desenvolvimento das nações – o importante será esta choldra, em que somos livres para morrer de fome, ver TV e dizer mal do vizinho à vontade!

Thursday, January 01, 2009

AS MINHAS CEREJAS


_Alentejo On The Road, Klatuu Niktos, 2007 (da série Memórias do Caralho que Não Largam um Gajo)


MELHOR LIVRO DE 2008

«Os Maias», de Eça de Queiroz. OK, eu sei que o livro foi escrito há mais tempo, mas só o li o ano passado; levei o ano todo para o conseguir ler, embora tivesse que apressar o último capítulo, consegui acabar a tempo de escrever isto. O livro é fixe: é sobre uns gajos góticos sempre impecavelmente vestidos, um deles é satânico e o mais maluco anda a comer a irmã.


MELHOR FILME DE 2008

Não me lembro o nome, porém é de fazer tesão aos mortos, um épico com a actriz brasileira Mônica Santhiago, numa representação intensa e emotiva. O filme é sobre o elo perdido que liga a feroz territorialidade sexual humana às melancias.


MELHOR CD DE 2008

Uma raridade que saquei na candonga quando fui a Itália comprar chouriços picantes, chama-se «Dio Mio» e é uma incursão do actual Papa no universo do industrial metal. O gajo ainda tem um longo percurso a desbravar mas já lhe dá uns toques. O CD é constituído por 7 temas apocalítpicos em que as letras são discursos do Hitler e salmos cristãos, temas poderosos, a rasgar, com a inovação de a bateria ser substituída pela modelação electrónica de disparos ritmados do canhão MK108, o Maschinenkanone, peça de 30 milímetros usada pela aviação alemã na II Guerra Mundial, que equipou maravilhas voadoras como o Messerschmitt Bf 109 e o Focke-Wulf Fw 190.


MELHOR PEÇA DE TEATRO DE 2008

Os discursos ao País do actual Presidente da República. Cavaco Silva é um actor de grande talento, que sabe prender a plateia a uma interpretação rigorosa dos ditames da perfídia, da mentira e da cobardia, tudo num registo de non sense, entre o fracturante existencialismo sem esperança e o vácuo iluminante do teatro do absurdo.


MELHOR PROGRAMA DE TV DE 2008

A chuva cinzenta quando se des-sintoniza o aparelho entre canais. É um programa informativo, de grande visão política e social, com um entendimento inteligente de Portugal e dos Portugueses.


MAIS BEM VESTIDA DO ANO

A ainda Ministra da Educação, Exmª Srª Maria de Lurdes Rodrigues. Veste-se em Paris com o dinheiro que tem roubado aos professores.


MAIS BEM VESTIDO DO ANO

Major Valentim Loureiro, homem que ainda governa alguns pontapés na bola. Veste-se em todo o lado, com as torradeiras e os aspiradores que tem recuperado das ofertas que fez a velhotas analfabetas durante a sua campanha para ascensão a político do Partido Social Democrata.


PERSONALIDADE DO ANO

Sua iminência o senhor Mahmoud Ahmadinejad, Presidente da República Islâmica do Irão. Nenhum outro débil mental com cara de tuberculoso conseguiu manter tão intensamente o mundo em suspenso, nem nenhum fez gastar tanto papel, internet e telefones no Ocidente.


MELHOR BLOGUE POLÍTICO

As caixas de comentários da caranguejola virtual Do Portugal Profundo, blogue do senhor António Balbúcio Caldeira, um mundo complexo que rivaliza com o Second Life, onde se pode encontrar de tudo, desde sodomizadores de galinhas a intelectuais em desenvolvimento, passando por recados à avó, planos de atentados e conselhos de foda. Um blogue que não faz auto-refresh (ou auto-reload), nem conta as visitas do autor, é tudo a seco, sem ventoinha, no meio do fedor e desinteressadamente.


MELHOR BLOGUE PESSOAL

O www ponto blogger ponto come, sem margem de dúvida. Foi com este blogue genial que tudo começou, os desabafos, os chiliques, as teorias da conspiração e os mananciais de gajas a mostrar o cono sem pudor e a dá-lo aos Portugueses que têm dinheiro para comprar um computador com webcam.


BLOGUE DO ANO

O da minha maninha adolescente: Hipérboles e Insanidades. É um blogue lindo, muito bem escrito e o que mais visito. A razão da sua escolha é puramente emocional… Conhecem uma razão melhor?




Desejo aos Portugueses e Portuguesas a persistência e o patriotismo necessários para conseguirem chegar a 2010. Bem hajam e continuem a confiar nos vossos telemóveis e nos programas de IRC, se estamos neste mundo é para aproveitar a vida.

P. S. De novo vos deixo a solene promessa de jamais passar este blogue a fundo branco.

Tuesday, December 30, 2008

O MURO


_Lutte de Jacob avec l'Ange, Alexander Louis Leloir, 1865


Uma e outra vez, uma e outra vez. Não haverá mais medo, nem morte. Aqui Deus lutou, aqui o guerreiro ergueu o rosto diante da face iluminada do outro guerreiro imune à morte. Olharam-se. Os homens são criaturas estranhas, a quem as trevas dão mais coragem que a luz. Talvez seja esse o erro maior: querer ver.
Aqui Deus lutou e agachamo-nos na treva. Não temos medo, sombras, vultos rápidos, horrores sem nome, não importa a quem combatemos, homens, anjos, monstros. Uma e outra vez, para sempre, uma e outra vez, diante de Ti, Senhor dos Exércitos.

Tuesday, December 23, 2008

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 25


_Nun, Oleg Dou, 2006


«Os que são cépticos de que alguns homens possam falar com Anjos, ou vê-los, cometem um duplo pecado: contra o céu e contra a terra; contra o céu, porque não demonstram misericórdia para com a solidão tremenda dos que vivem no meio do fogo alto, e contra a terra, porque não mostram esperança e fé de que a humanidade um dia se erga do chão.»

Lord of Erewhon

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Sunday, December 14, 2008

ABSINTHE, 6ª DOSE

_Avenida Guerra Junqueiro, Lisboa, Natal de 1959, Armando Serôdio


Há uma neblina estranha, que se desprende das coisas e dos corpos, entardecer cinzento por entre a chuva como uma fotografia antiga a espreitar noites pretéritas. Está frio. Levanto a gola da gabardina a pensar que a chuva me vai dar cabo do chapéu de aba, estilo anos 40, recém comprado; nunca ando de guarda-chuva, é escusado, perco-os no primeiro lugar em que me sente.
Eu adoro passear por Lisboa à toa e detesto Lisboa; é um paradoxo ridículo, acho que amo as ruas e detesto as pessoas, estas multidões apatetadas e os gajos armados em intelectuais – alguns são – que por cá conheço. Lisboa resume em símbolo o meu divórcio de tudo: em Lisboa sou mais pária do que em qualquer outra parte e é talvez o assalto da sensação de que só existo dentro de mim, reflectida por estas ruas, que me faz voltar.
Em Lisboa sei que sou um fantasma, diletante e irreal, um gajo calado e misantropo cheio de sonhos, que tem desperdiçado a sua existência e o seu talento num país secreto, que talvez nunca ninguém venha a compreender inteiramente. A minha vida é estranha; e essa é a percepção de mim que mais me intriga e inquieta e que sempre me é comprovada: entro n’A Brasileira com o chapéu absolutamente seco – como as estátuas, os cães vadios e os mortos devo ser imune à chuva.

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Monday, December 01, 2008

OS MONÁRQUICOS PORTUGUESES HOJE CELEBRAM O 368º ANIVERSÁRIO DA RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL



MENSAGEM DE S. A. R. DOM DUARTE DE BRAGANÇA, DE 1 DE DEZEMBRO DE 2008

Portugueses:

No 1º de Dezembro de 1640, os nossos antepassados devolveram Portugal aos Portugueses. Souberam responder à crise do seu tempo, lutando pela nossa independência. Hoje, olhamos para o nosso país, e vemos que se acentua a dependência externa e a obediência a directivas quantas vezes alheias à nossa própria vontade.

Anunciam-se dias difíceis. Parece evidente que 2009 será pior que os já duros anos recentes, particularmente para os mais desfavorecidos. É nos momentos de provação que se testa a alma de um povo. Para enfrentar a crise e manter a coesão social devemos invocar os valores espirituais da nossa cultura e vivermos em coerência com a nossa identidade e tradição. O reforço dos laços familiares, o sentido de comunidade e de povo são atitudes urgentes e decisivas em alturas como esta.

Enfrentámos muitos problemas terríveis ao longo da nossa História, que o nosso ânimo conseguiu ultrapassar. E daqui apelo aos instintos de iniciativa e solidariedade, de generosidade e de engenho.

É preciso ampliar a visão, ensaiar ousadia, e confiar a nós mesmos a garantia de desenvolvimento sustentado.

Vivemos uma ocasião propícia para rever as nossas prioridades. Devemos aprender a viver melhor consumindo menos, poupando os recursos limitados do nosso planeta. Para isso é importante apoiar a acção pedagógica de cientistas e organizações ambientalistas. Somos o país europeu com a menor percentagem de filiados nestes movimentos, que mereciam mais representação parlamentar.

A hora é de investir no povo português. As grandes opções para o nosso desenvolvimento têm agora uma oportunidade única para alterarem o rumo. Em vez de se deixar bloquear por falta de critérios técnicos ou por pressões de interesses, o Estado, o sector privado e as associações devem dar as mãos para ultrapassarmos as dificuldades. Queremos medidas mais justas e mais equitativas, e não apenas declarações que chegam tantas vezes tarde demais…

Como disse, a hora é de investir no povo português. É o que têm feito as famílias portuguesas que, com muito sacrifício, apostam na educação dos seus filhos. A qualificação dos jovens é indispensável e os movimentos de professores e de pais clamam por melhor Escola, em programas de ensino adequados, e pela dignificação e respeito pela missão dos professores.

A hora é de investir na terra portuguesa. É o que têm feito os agricultores que se recusam a abandonar a terra, contrariando as directivas desencontradas e a concorrência desleal por parte de outros países onde são muito mais apoiados. Portugal não precisa apenas de uma política de comércio livre; precisa sobretudo de uma política de comércio inteligente e justo.

Os nossos agricultores sabem produzir. Falta que saibam melhor associar-se e cooperar para distribuir os seus produtos directamente aos consumidores. Nos últimos dez anos perdemos 180 mil hectares de boas terras agrícolas comprometendo gravemente a nossa capacidade de produção de alimentos, acentuando a nossa vulnerabilidade. Ainda recentemente experimentamos os perigos que daí podem advir.

A hora é de investir no território português apoiando empresas inovadoras que recorram a energias alternativas.

Simultaneamente devemos combater os desperdícios energéticos e dar prioridade a transportes ferroviários e marítimos, como alternativas competitivas. A capacidade de auto-sustentação no plano energético é cada vez mais necessária. Por exemplo, modernizando as barragens hidroeléctricas já existentes, aumentaríamos a produção de energia em 20%.

O Estado deve promover e praticar uma política de gestão rigorosa dos seus recursos de modo a promover a nossa competitividade; deve ter um orçamento equilibrado para poder baixar os impostos de modo selectivo.

O Estado deve desistir das obras faraónicas, aumentar a produtividade da função pública, encorajar os investimentos privados que produzam riqueza, preferindo sempre bens e serviços produzidos em Portugal. Por exemplo, o facto dos fundos da Segurança Social não serem investidos exclusivamente em empresas portuguesas, contribui para a descapitalização nacional e para o desemprego.

Apelo aos partidos políticos para que não se deixem tornar em meros mecanismos de conquista do poder; que se lembrem que têm um papel decisivo nos debates sobre as doutrinas e as práticas políticas. Mas para isso, devem ser uma escola da cidadania, dialogando com as organizações não governamentais.

Este sentimento geral de que a democracia deve ser melhorada entre nós, levou-me a apoiar o recém-criado Instituto da Democracia Portuguesa, que tem já desenvolvido múltiplas e úteis actividades em várias regiões do país, em colaboração com diversas organizações e com as autarquias locais.

Em 1975 recuperámos as liberdades de expressão e de participação política que já existiam antes da revolução de 1910. Mas cada vez mais ouço especialistas e pessoas de bom senso a dizer: Portugal atrasou-se no séc. XX porque prescindiu do poder moderador do seu Rei, ao contrário de Espanha, Inglaterra e Bélgica, e outros países europeus, que prosseguiram na vanguarda do desenvolvimento.

Tenho percorrido o país de lés a lés. Sou sempre cordialmente acolhido pelos autarcas e pelas populações às quais agradeço o carinho que me dispensam. Nessas ocasiões, apercebo-me da grandeza do nosso património cultural, erudito e popular. Basta apreciar as nossas tradições culturais para me dar conta de como se formou a gente portuguesa, nas várias regiões em que se expressa a alma nacional. É este «produto interno bruto» que mantém em alta a bolsa de valores humanos em que nós devemos investir.

Quero aqui lembrar as numerosas homenagens a D. Carlos promovidas por várias Câmaras Municipais, com destaque para a ocasião em que o Chefe do Estado inaugurou a magnífica estátua erigida em Cascais.

Durante todo este ano tiveram lugar inúmeros eventos de carácter cultural em homenagem ao Rei e ao Príncipe Dom Luís Filipe, organizados pela Comissão D. Carlos 100 Anos, integrada na Fundação D. Manuel II. Salientou-se o congresso «Os Mares da Lusofonia» que reuniu representantes de todos os países que falam português. Pelo interesse suscitado, foi lançado o desafio de a realizar cada dois anos, em países diferentes.

Continuei este ano a colaborar com vários dos países nossos irmãos, especialmente a Guiné-Bissau, Angola e Timor, mediante programas de desenvolvimento rural e protecção ambiental.

Aproveito para saudar o Primeiro Ministro Xanana Gusmão, actualmente de visita a Portugal, como líder que soube conduzir o heróico Povo timorense na luta pela liberdade e agora o serve com seriedade e competência no caminho do progresso material e espiritual.

Saúdo o alargamento da CPLP esperando que em breve, Marrocos, o Senegal, as Ilhas Maurícias, a Guiné Equatorial e os nossos irmãos galegos possam fazer parte dessa comunidade. A Galiza procura afirmar a sua identidade cultural através da sua «fala», que está na origem do português moderno.

Tive a alegria de levar a minha Família ao país de minha Mãe, trineta do primeiro Imperador, Dom Pedro, para participar nas celebrações dos 200 anos da transferência do Governo e do Rei para o Brasil. Finalmente foi feita justiça ao tão caluniado D. João VI!

A crescente importância económica e política do Brasil no Mundo é um motivo de orgulho e de oportunidade histórica para Portugal. Felicito os nossos governantes por a saberem aproveitar.

Deixo para o fim a instituição militar que, desde a fundação de Portugal tem estado intimamente ligada ao nosso percurso colectivo. Hoje, defendendo Portugal «lá fora», tem contribuído de forma impar para o prestígio e afirmação nacionais e para a paz e a segurança da população portuguesa e das regiões em que tem operado.

A canonização, em 2009, de D. Nuno Álvares Pereira, patrono das Forças Armadas, será uma providencial ocasião para aprendermos com os seus exemplos de valentia e caridade, inteligência militar e política, e defesa intransigente da nossa liberdade e independência. Saibamos aproveitar essa oportunidade!

Do fundo da história vem uma certeza que os monges de Alcobaça redigiram numa das mais belas frases da monarquia portuguesa: «O rei é livre e nós somos livres!».

Neste convento do Beato, situado na Lisboa Oriental onde se começou a conspirar para o 1º de Dezembro, deixai-me hoje proclamar: «Eu sou livre e vós sois livres!». «Eu sou livre» e «Vós sois livres» porque ser monárquico é também defender Portugal acima de todos os interesses. Juntos poderemos renovar a democracia portuguesa pela Instituição Real que só poderá vigorar por vontade do povo, com o povo e enquanto o povo o entender.

A minha Mulher, eu, e os nossos filhos Afonso, Maria Francisca e Dinis, a isso nos comprometemos porque Portugal pode, Portugal deve, e Portugal quer continuar democrático e independente!

Todos os que pensarem que o sonho dos fundadores e dos restauradores ainda está vivo, venham ter connosco; e se alguém questionar este crescente sentir do poder do povo, a resposta é hoje, como o foi no primeiro 1º de Dezembro: «O rei é livre e nós somos livres!».


Convento do Beato, 30 de Dezembro de 2008




_VIVA O REI!
_VIVA PORTUGAL!

Sunday, November 30, 2008

TAXI DRIVERS, 1



Fotogramas do filme «Taxi Driver», Martin Scorsese, 1976


Boa noite. Leve-me ao Campo Pequeno, por favor.
Chove, as luzes citadinas, feéricas por entre a chuva, atravessam vultos, sombras, o vapor que se desprende da estrada, dos passeios e das árvores.
– Isto hoje não anda… já estou arrependido de ter vindo por aqui, mas ao Sábado é assim!
– Está meio entupido, está…
– Ao Sábado é assim… vem toda a trampa para Lisboa, embebedar-se e drogar-se!
– Sinal dos tempos… Não se preocupe, não tenho pressa.
O véu de chuva torna tudo irreal. Para onde irão estas multidões? A vida move-se, a mesma fome primordial a agita desde o princípio dos tempos, mas cidades assim fantasmagóricas, apocalípticas, talvez nunca tenham existido antes, com este desespero nos rostos, este uivo espectral de tudo.
– ... Eu trabalhei vinte e oito anos no Casão Militar – o taxista é um gajo entroncado, conserva algum vigor, apesar das rugas e do cabelo grisalho; deve ter já passado os sessenta – e agora ainda tenho que pegar no carro… Isto está mau e nunca se sabe, temos que nos prevenir, pode vir uma doença, sei lá, e tenho uma filha a acabar a faculdade. Com os filhos da puta que estão no Governo é que não se pode contar! Um gajo trabalha e nunca vê nada…
– Vivemos num país adiado, amigo. Trinta e quatro anos depois do 25 de Abril e ainda não tiveram tempo…
– Olhe, eu nunca fui salazarista, mas quando fizerem o funeral a esta merda, ainda atiro um balde de cal!

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Friday, November 21, 2008

A FOCA




«Eu não acredito em reformas, quando se está em democracia [pausa]. Quando não se está em democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se [pausa]. E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia.»
Afirmações de Manuela Ferreira Leite, actual líder do PPD-PSD, no final de um almoço promovido pela Câmara de Comércio Luso-Americana.


COMENTÁRIO
Nesses proféticos seis meses sem democracia… espero que o Povo Português não se esqueça de fazer justiça – e enfie com todos os políticos de merda que há três décadas e meia desgovernam este País num paquete, e os mande pedir asilo às focas do Pólo Norte! Não estou a brincar.

Monday, November 10, 2008

PENSAMENTO GÓTICO DA NOITE – 24



«Os meus amigos homossexuais querem casar; não somente envolver o Estado como escrivão de um contrato de compra e venda do afecto mas ainda exibir uma relação proprietária da carne nas Igrejas. Passei todos estes anos a pensar que eram diferentes – afinal são iguais a toda a gente.»

Klatuu Niktos

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Wednesday, October 29, 2008

ABSINTHE, 5ª DOSE


_Fotograma do filme Batman, Tim Burton, 1989


A memória é um filme. Um arquivo de fotogramas, refeitos numa montagem pessoal, o que lembramos é um arbítrio passional, recordamos mais certas horas que certos anos, mais as imagens que os sons, o gosto, o toque e o odor. Curiosamente o filme da minha memória é deturpado por perfumes. Não recordo o sabor das cubas libres que tinha o hábito de beber há vinte anos – hoje são-me insuportáveis – nem a pele na minha pele das mulheres que amei, nem a música dos dias, mas as imagens evocadas têm sempre um qualquer cheiro peculiar.
Tenho a infelicidade de conhecer gente culta, importunam-me os fins de tarde no café com conversas difíceis, inteligentes, claro, e inúteis. Ontem falava-se da década de 80, até o tema se ter exaurido em despojos singulares: um evento, uma personalidade, um livro; a memória é uma donzela álacre e mentirosa, estávamos três homens e uma mulher em redor de uma mesa com jornais, um cinzeiro, chávenas e copos, estivemos nos mesmos lugares e ninguém os conservou dentro de si de modo igual.
Não se procurava apenas um indício que caracterizasse a época utópica, demandava-se algo ou alguém que a tivesse anunciado e encerrado. A mim assolaram-me uma imagem e um perfume: a primeira mulher por quem me apaixonei a sério, chamava-se Filomena e residia em Odivelas… Sei lá. A minha década ficou em aberto, nem a queda do muro de Berlim nem a chegada da Voyager 2 a Neptuno, nada.
Só hoje me ocorreu um poema, tem a data certa e, estou convicto, fecha com um belo cadeado a minha década de 80:


POEMA

O Professor Agostinho da Silva, opado e coadjuvado
pelo Gato:

_________
O Reino do Pai
_________
O Reino do Filho
_________O Reino do Espírito Santo…

A Rainha Santa Isabel, descendo em Marvão:

_________
Tudo
_________

_________Homens.
_________Já cansa a cona, caramba.

Mário Cesariny, Outubro de 1989

Tenho em mim a forte crença de ainda estar vivo. Os pastéis de nata já não são o que eram, nem o sabor do café.

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Tuesday, October 21, 2008

NOCTURNO ANDALUZ

.Dedicado ao Goldmundo

_13, Plantation Goth, 2005



Noites de cinza. Corvos sobre as dunas.
A alfarrobeira deixa cair os seus dedos mortos.
Do fundo do pinhal alguma coisa canta.
Escuta as nocturnas águas, as escuras águas.
Fala agora da pureza das águias, de como
A erva cresce. Da morte no brilho
Das cascatas e das gaiolas brancas ao luar.
Das torres, dos laranjais, dos terraços. De como
Das profundezas do mundo, dos rigores da pedra
A nora levanta os cântaros. Os pés da roda
São os pés da bruxa dos silvados
Que ama os mochos. Cala agora e escuta.
Na faina auroreal a velha morta canta.




Publicado também no blogue O Bar do Ossian .

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Tuesday, October 07, 2008

CONSULTÓRIO SEXUAL DA REVISTA «MARIA» (ADAPTADO)



O DIABO RESPONDE…


Eu tenho relações sexuais com o meu cão, que é um animal muito limpo, com as vacinas em dia. Correrei o risco de ficar grávida ou apanhar doenças?
Custódia Pitbull, Buraca, Amadora

Não se preocupe com isso! Em nome da protecção dos animais, precisamos de saber é se a Custódia tem as suas vacinas em dia?

Quando me masturbo tenho mais prazer se enfiar o dedo no ânus. Pedi à minha namorada para me fazer isso enquanto fazíamos amor, ela ainda fez mas depois não quis mais e ficou aborrecida comigo. Estou desesperado! Serei homossexual?
António Simples, Avenida de Roma, Lisboa

De modo nenhum, meu caro. Você é apenas um paneleiro homofóbico. Não se atormente!

Tenho 18 anos e há 4 meses que tenho relações com o meu vizinho de 41. Dá-me muito prazer e estou a ficar viciada no sexo dele, já nem me apetece estar com o meu namorado. Vivo com a minha mãe e ando muito nervosa, com medo que descubra. A minha mãe já me quer levar ao psiquiatra e o meu namorado só me pergunta se tenho outro. Que devo fazer da minha vida?
Aninha aka Satanic Whore, Foz do Douro, Porto

Não faça nada, a sua vida está óptima. Em vez de se angustiar, comece a deixar o namorado sozinho com a sua mãe, não queira tudo para si.

Sonho sempre que faço amor com outras mulheres. Amigas minhas já me disseram que isso não quer dizer nada. Mas não sei. Será que isto é normal?
Maria Nuvem, Bairro do Fim do Mundo, Estoril

Normalíssimo! Se quiser envio-lhe o número de telemóvel da minha namorada.

O meu marido quer sempre ter sexo a ver filmes pornográficos, só aluga filmes esquisitos e depois quer que eu faça aquelas posições! Até ando a pensar separar-me dele. Que me aconselha?
Deus o abençoe, por ajudar os outros. Gosto tanto de o ler.
Joaquina Medrosa, Baixa da Banheira, Moita

Aconselho que ofereça ao seu marido um curso de Realização de Cinema por correspondência e, enquanto ele aprende, arranje um amante. Se quiser falar pessoalmente comigo, a minha próxima folga é na Quarta-feira.

O meu companheiro de apartamento quer sempre tomar banho antes de mim e eu sei que se masturba na banheira. Tenho medo de ficar grávida.
Tininha Doçura, Pioledo, Vila Real

Querida, enquanto insistir em ficar virgem até ao final da licenciatura, vai ser muito difícil. Deixe de espreitar o rapaz a bater punhetas e ajude-o nos estudos, por amor de Deus!

Cada vez que vou na discoteca, e bebo, vou para a cama com qualquer um, principalmente se for jogador de futebol. Recebi um e-mail a dizer que tem droga que faz isso. Estou preocupada. Será que estão metendo droga na minha bebida? Como posso saber?
Teresa Peluda do Paraná, Vila Nova de Gaia, Porto

É fácil. Se for para a cama com um e acordar no meio de dois, é só do álcool. Mas se for para a cama com dois e acordar entre a equipa do Futebol Clube do Porto, então andam a meter, meu bem.

Tenho 57 anos e um amigo aconselhou-me uns supositórios para a disfunção eréctil. Aquilo funciona, mas quando a minha mulher se despe, fico outra vez de pau murcho. Acha que devo dobrar a dose?
Zeca Nice, Miratejo, Almada

Zeca, espere, que vou enviar-lhe o e-mail da Aninha aka Satanic Whore. (Qual é o tamanho dos supositórios?).

A minha mãe apanhou-me a masturbar na webcam e tirou-me o computador do quarto! Diz que sou uma puta e igual ao meu pai! E agora sem a webcam estou sem dinheiro no telemóvel! Tu achas isto normal?
GatinhaXupaXupa1992, Afonsoeiro, Montijo

Não sei, bebé, a menina masturba-se com a esquerda ou com a direita?