
_A Ala dos Namorados, Jorge Colaço, 1922-27, painel de azulejos no Pavilhão Desportivo Carlos Lopes, em Lisboa
Como nada do que afirma no preâmbulo do seu texto me faz mover a bateria de neurónios que se preocupa com a ciência política, porque em parte já lhe respondi em comentário, neste e no seu blogue, e porque você nesse trecho nada acrescenta ao debate – apenas fazendo recurso a mais uma falácia do museu da filosofia, que sempre entretém plateias imbecis e faz tremer, de riso, as cadeiras, singulares, em que se sentam os sensatos – começarei onde no texto a referida pseudo «desmontagem» sua se ergue à vaidade de querer competir com a nobre arte da montaria.
Ainda, apenas, notas. 1.1. Comenta um meu comentário e não o texto publicado no meu blogue – passo, não vale a pena perder tempo com miudezas de baixa intriga, nem discutir modéstias e imodéstias: deixemos os truques aos ilusionistas. 1.2. Os desgostos. Não há contradição, nem paradoxo: os desgostos que não me disponho a discutir são os de alguém, os de um, os singulares e íntimos. Nem afirmo que há uma prova do desgosto de milhões… confronto que os desgostos colectivos já não são caprichos da emoção mas política. 1.3. Os Francos. Não, não é claro, não o é inequivocamente para todos os leitores; eis o que você afirma no texto Para os monárquicos (2): «Na prática, e pegando exactamente em D. Carlos, há que lembrar a ditadura de Franco – sim, quando o Rei via a coisa mal parada decidia fechar o Parlamento […]»; ora, usa-se Franco para o ditador espanhol e não para João Franco, aliás, foi a primeira vez que o li assim designado. A forma pela qual optou pode justamente confundir uma boa parte dos leitores – eu percebi.
1.4 O seu primeiro contra-argumento. Não afirmei em lugar algum que você defendeu um republicanismo totalitário, pelo que me parece que neste aspecto se defende de coisa nenhuma. A questão foi introduzida pela simples razão de que eu a introduzi, no desenvolvimento do meu raciocínio e do que antes, nesse texto, alego – não é assim que procede o pensamento: acrescentando matéria, ideias e progredindo?
Convida-nos de seguida a uma contagem de cadáveres (!), que quereria remontasse cinco séculos até à chacina de Aztecas, Maias, Incas; porém eu reportei-me claramente aos totalitarismos republicanos do século XX, afirmando, de facto, que os considerava mais lesivos que qualquer período tirânico da monarquia, não deixando de ressalvar que a comparação era «temporalmente injusta», uma vez que todas as civilizações foram monarquias, ou proto-monarquias, desde os primórdios da civilização humana, ou seja, admiti, como tal, que não faltaria onde encontrar «crimes das monarquias», mas nenhum século que tivesse sido tão devastado, como o foi o século XX, pelas tenebrosas formas de republicanismo que foram o nazismo, o fascismo, o comunismo, etc. Concluo nisto que a sua observação é inútil e apenas me fez desperdiçar mais duas vintenas de termos para lhe esclarecer o que sempre foi óbvio, sem ainda nada de novo ter sido trazido ao debate.
No que diz dos conluios de alguns monarcas com os fanatismos religiosos, todos os conhecemos, e concordaremos que um mês dos fornos nazis em funcionamento ocultam todos os fumos de todos os autos de fé! Quanto ao convite que me faz a «apenas hipóteses», as que aventa são de ficção científica… por que diabo irei eu imaginar as vítimas que teria originado a Guerra dos Cem Anos com os meios bélicos actuais – se isso nunca ocorreu?!? E que relação estabelece isso com as suas críticas à monarquia?? Não entendo, eu, nem ninguém. (Sic) «ou pense no que seria o controlo da sociedade por parte do Estado com os meios tecnológicos que actualmente temos». Não penso nada, homem, isso seria entregar-me consigo à perda de todo o sentido e entrar por aquelas veredas da incapacidade de pensar, em que a questão da existência de Deus é respondida por alienígenas de Saturno, que andam a plantar monolitos de metal no imaginário de alguma gente de alma mais excitada.
Não estou seguro, mas parece-me que é por esta altura que você esboça o seu segundo «contra-argumento».
2. Folgo em saber que concorda com pelo menos um argumento dos monárquicos («argumento que não houve consulta popular que legitimasse a transição para a República é muito válido e até concordo com a realização de um referendo»), mas isso é comum, quando se trata de algo evidente até para o meu piriquito de S. Tomé, que consegue dizer: Chegou o Rei! No entanto não é óbvio para mim de que «raiva» você fala, nem de quem, nem perante o quê – aqui apenas fico certo que essa «raiva», seja lá o que pretende dizer, não é minha.
O que de seguida diz, já me interpela, pela razão simples de que não tem cabimento: não, ninguém imagina, com toda a certeza, o Senhor Dom Afonso Henriques a fazer um referendo! Sabêmo-lo, sim, a vencer batalhas, a ameaçar cortar a cabeça a um enviado papal, a não respeitar tratados nem juras, a não se vergar a nada nem ninguém, espada, escudo, espada, e a ser erguido, após a Batalha de Ourique, sobre o escudo, à velha maneira germânica, e a ser aclamado Rei; isto antes que um bispo dos bispos o confirmasse como «chefe de estado». Pois aqui tem, os homens escolhem reis desde o princípio dos tempos, como os Lusitanos escolheram «o das muitas vírias», porque Viriato ganhava batalhas e se erguia como chefe dos chefes. Simples – a monarquia foi, desde sempre, o sistema natural de governação dos povos bélicos… e todos o foram; salvo uma ou outra excepção de devoradores pacíficos e místicos de frutos de bananal, dos quais a História apagou o nome. Claro, não quero parecer demagogo nem poeta, a História não parou e a questão das relações – políticas – entre governantes e governados progrediram para formas de sociedade mais complexas… ou não teríamos tido um Cromwell, a Revolução Francesa, Karl Marx, o Regicídio, etc.
Quanto ao que diz de Espanha, deixo aos «espanhóis» – povo de que tanto se fala e não existe, mas os castelhanos, os galegos, os andaluzes, etc –, não sem o advertir a que estude mais da História recente do Reino de Espanha, aquela coroa que se apropriou da geografia romana… Quanto às demais monarquias europeias, nada que espante: não referendaram porque tal não lhes ocorre. A questão não existe na sua agenda política, nem tem por onde. E teria cabimento? Se essas monarquias garantem os melhores níveis de vida, democraticidade e desenvolvimento?
3. Parece-me ser agora o seu terceiro contra-argumento. Está você certo, é isso o que penso, e insisto e reitero: a República neste país perdeu toda a legitimidade; não funciona e sempre funcionou mal. Estou com dificuldade em seguir o seu pensamento emperrado e saltitante, no entanto continuemos.
3.1. Os males. Analfabetismo. O Portugal de hoje tem uma taxa de alfabetização e literacia inferiores à Roma do século II! Não continuemos, é triste.
Indústria. Compare todo esse período (1640-1910) em Portugal e na Rússia dos czares! Tudo é relativo, meu caro, está a comparar com que nação ou nações? Não refere.
Comboios. Não os houve durante grande parte desse período, esperou-se pela Revolução Industrial … Não existia a noção política de «Europa», e Portugal nunca foi uma super-potência, nem na ilusão cartográfica – atravessada pelo corso e a pirataria – do Tratado das Tordesilhas. Não o foi sequer o Reinado de Carlos V. Apesar da expansão além mar, Portugal e Espanha sempre foram reinos de médio poder no contexto dos seus pares europeus, e que bem o provaram os exércitos, a sorte dos ventos, o ultimato das diplomacias e a História, assim que Britânicos, Franceses, Holandeses e outros se fizeram também ao mar.
Analogias, ensino, etc. Não continuemos por aí, meu caro, não é comparável nem analógico – é você que tem a tendência para meter na mesma cesta pepinos frescos e fast food preparada para micro-ondas. Passo, o ensino, privatizado, público, ao deus dará, por meditação transcendental ou intuição inteligente é outra coisa, que nada esclarece do que você havia criticado à monarquia e eu defendido.
4. (Já estou pior que o Minotauro quando se esquecia das chaves da retrete no labirinto, mas acredito que neste ponto você tenta um novo contra-argumento.)
Aqui você é profundamente contraditório… Então quer um presidente vitalício e chamar a um tal regime: Monarquia?? Bom, de facto, cavalheiros como Hitler, Franco, Salazar, etc, foram belos exemplos de presidentes-reis, despóticos e assassinos, em República! Ó meu amigo, espero que não tenha nada contra botifarras de biqueira de aço, porque a dar tiros nos pés com essa frequência, acaba aleijadinho.
Perverte (o lapso ortográfico é seu) o regime (!), o rei teria que agradar (!) ??? Permita-me usar o pensamento analógico, que tanto lhe apraz: aquilo que você deseja, perverte-o? Deixemos os terrores sexuais do cristianismo para melhor altura.
Quanto à diferença prática, a mesma está toda esclarecida no meu texto, volte a lê-lo. Em resumo (o que previamente lhe disse): um rei não tem que ser aceite, é desejado, e um presidente não é eleito pelo povo, é levado a concurso pelos partidos e votado por uma maioria dentro de uma minoria: os eleitores que se encaminharam para as urnas – consulte os dados eleitorais das últimas presidenciais e registe quantos dos Portugueses escolheram Cavaco Silva… ficará espantado.
Pergunta você: «Poderá argumentar-se que a diferença reside na ligação à pátria, mas quem nos diz que um Rei é mais patriota que um Presidente?». Respondo: digo-lhe eu, e nisto de mais não preciso. Não obstante até as lagartas das couves, que não conhecem pátria, comigo concordariam. Um rei não tem partido e, no Portugal que estamos a ter, um rei, enquanto chefe de estado e símbolo da unidade e dignidade da nação, já teria dissolvido um governo como o actual, que aviltasse, no desprezo pelos poderes legítimos e competências de um rei, todos os Portugueses!
(E não me fale do «patriotismo dos Presidentes Americanos», a humanidade e a História já plebiscitaram os mais recentes como «maus monarcas»! E deixe lá a Rússia, homem, porque isso de falar-se da Rússia sempre que se fala dos EUA sempre foi o Benfica-Sporting da política de cervejaria.)
5. A sua opinião da monarquia não ser eticamente aceitável (cito-o): «pelo facto de, como já disse várias vezes, considerar que o filho do Rei não deve ser também ele Rei apenas por ser filho de quem é». Ah, mas é por isso? É por isso que não é eticamente aceitável?! Então você quereria que numa monarquia o herdeiro do trono não fosse o filho do Rei?? Então, quem??? Quem deveria ser, meu caro?… o filho do padeiro? do capitão de cavalaria? da acriz mais famosa? do homem mais rico? Quem?
Cito-o de novo: «A questão do "serem estáveis e tudo mais" é exactamente a mesma história das monarquias europeias serem muito boas: não me interessa, interessa-me analisar a legitimidade de um Regime e não as suas consequências práticas.» – Estou pasmado! Sem qualquer ironia, estou pasmado! Então que regime pode você conseguir conceber… a que possa ser conferida legitimidade por um povo… se as consequências práticas do mesmo… forem um péssimo nível de vida, pobreza, incultura, infelicidade, injustiça social, crime, gatunagem, corrupção, falta de liberdade e desprestígio, dentro e fora de portas, desse mesmo regime?? E aqui não posso deixar de lhe dizer, mesmo se vou ser pouco elegante: ó homem, então não fale de política, faça cronismo de culinária e doçaria!
Depois, lá você me volta com a Rússia, para colocar ao mesmo nível o poderio externo dos estados totalitários – conseguido às custas da tortura, do assassinato, da guerra e do genocídio – com a minha defesa de uma monarquia democrática, nos efeitos práticos, altamente benéficos, sobre os povos europeus que a têm como regime! Etc, etc. Você acredita, verdadeiramente, nos disparates que vai escrevendo?
Por último, conclusão, ou lá o que é.
a) Não faço ideia do que se está a referir… Indique-me o «teor», que lhe procurarei responder.
b) Quanto ao seu nome, nomes, etc, nada tenho a dizer… Isso tem que pertinência?
c) Quanto ao você escrever «num dos blogues mais respeitados do país»… Ouviu isso onde, homem? Na internet?? E que importa? Confere a si uma maior credibilidade? Olhe que não, não e nunca, face à inteligência e ao tribunal da razão.
d) Dá por terminado, «definitivamente», que debate? Você nada consegue debater, é incapaz de produzir uma argumentação logicamente coerente, salta de termo para termo, de ideia bizarra para ideia bizarra e devora épocas, acontecimentos, séculos, como quem procura numa salada de frutas os pedaços de pomo que mais lhe agradam ao paladar… E tem a audácia de afirmar que debateu? Inaudito.
Digo-lhe só mais isto, meu caro polemista do blogue respeitado: o socratismo que se aprende nos liceus é um conto da carochinha. E proponho-lhe como reflexão para o resto da semana (que lhe desejo de paz e tranquilidade) o seguinte:
Os monárquicos portugueses são pessoas de bem, nenhum dano desejam a este País nem a este Povo, são, honestamente e sem reservas, patriotas, no sentido simples da palavra, que é amar. Não merecem, como tal, andar a ser falados – em boatos, anedotas e outros géneros de gáudio popularucho que querem passar por cronismo social e político –, como se fossem uns pobres tolos, ou lunáticos, que não tivessem meditado, fundamente, fundamente, sobre Portugal, o seu passado, o seu presente, o seu futuro e, acima de tudo, no bem estar, dignidade e progresso do nosso Povo e da nossa Pátria.
«O Rei é livre e nós somos livres!»
Cumprimentos.